terça-feira, 13 de dezembro de 2011

O PERFIL E ATRIBUTOS DO CONSELHEIRO BÍBLICO

Pr. Isaltino Gomes Coelho Filho
Apresentado aos alunos do Centro de Formação Pastoral do Amapá

INTRODUÇÃO -  UMA QUESTÃO PRELIMINAR
Não basta dizer-se vocacionado para o ministério pastoral ou para o ministério do aconselhamento para ser bem sucedido nestas atividades. Ser vocacionado não é uma garantia de que as coisas darão certas. Prova disso é o grande número de ministérios que dá errado e de igrejas com problemas muitas vezes causados por pastores. E, da mesma forma, de conselheiros que não conseguem ajudar as pessoas. Há algo mais além da chamada e da boa vontade em fazer a obra.

Ter consciência da chamada da parte de Deus e manter uma vida de comunhão com ele ajudam muito ao obreiro. Mas ter o preparo necessário também ajuda muito. Ninguém negará que Pedro foi chamado e usado por Cristo. Mas a sombra projetada pelo ministério de Paulo foi maior que a projetada por Pedro. Inteligência e preparo postos a serviço de Cristo é uma bênção.  O conselheiro bíblico precisa ser bem preparado. Tanto na área de estudo sobre o assunto e sobre a Palavra de Deus, como na área do preparo emocional. O emocional e o espiritual devem caminhar juntos, principalmente na vida de quem cumpre a tarefa de ajudar o povo de Deus. Por isso, é sempre oportuno lembrar, o primeiro dever do obreiro cristão é cuidar de si mesmo. É triste a palavra da sunamita em Cânticos 1.6: “Puseram-me por guarda de vinhas, mas a minha vinha não guardei”. Guarde a sua vinha! Seja uma pessoa que busca a maturidade espiritual e emocional. Invista em si mesmo.

Na matéria de hoje veremos alguma coisa sobre o perfil do conselheiro. E veremos também algumas atitudes que são necessárias no seu ofício. Comecemos pelo perfil.

1. O PERFIL DO CONSELHEIRO
Muitos aspectos do perfil do conselheiro poderiam ser alistados aqui, mas ressaltemos os principais à nossa tarefa de líderes cristãos.

O primeiro deles é empatia. A palavra vem da mesma raiz de “simpatia” e de “antipatia”. Simpatia é sentir na mesma direção, sentir com. Antipatia é sentir contra. Sobre empatia, o prefixo grego en nos esclarece: é “sentir dentro”, “sentir como se fosse a pessoa”. A simpatia pode ser entendida como uma ternura, mas a empatia é uma profunda compaixão que nos faz colocar-nos no lugar daquela pessoa. O fundador do cristianismo foi a maior manifestação de empatia que o mundo já viu: “O Verbo se fez carne” (Jo 1.14). Deus foi empático conosco, na pessoa de Jesus. Empatia tem a ver com compaixão. O Salvador era profundamente empático, porque era profundamente compassivo: “Vendo ele as multidões, compadeceu-se delas, porque andavam desgarradas e errantes, como ovelhas que não têm pastor” (Mt 9.36). E este é um conselho bíblico para todos os cristãos: “Alegrai-vos com os que se alegram; chorai com os que choram” (Rm 12.15). Somos exortados a experimentar e partilhar os sentimentos dos irmãos. O autor de Hebreus aconselhou a comunidade cristã nos seguintes termos: “Lembrai-vos dos presos, como se estivésseis presos com eles, e dos maltratados, como sendo-o vós mesmos também no corpo” (Hb 13.3). O conselheiro cristão deve ter este sentimento bem aguçado. Ele não é juiz nem um crítico, mas um ajudador. E um ajudador com compaixão.

Não somos profissionais que atendem a pessoa, ouvem-na sem experimentar emoção alguma (algumas vezes bocejando de indiferença), e depois apenas perguntam: “Sim, o que você pensa em fazer sobre isso?”. Somos pessoas que amam a Deus, que amam o povo de Deus e que servem a Deus servindo a seu povo. E mostramos nosso amor a Deus no amor ao seu povo. Empatia é mais uma postura que adotamos que um sentimento que experimentamos. É sentir com a pessoa. A frieza ou a indiferença é mortal no trabalho do conselheiro. Como bem frisou Collins: “É possível ajudar as pessoas mesmo sem compreendê-las inteiramente, mas o conselheiro que consegue transmitir empatia (principalmente no início do processo terapêutico) tem maiores chances de sucesso” [1]. Ouvi um pastor psicólogo criticar um pastor que chorou no sepultamento de uma de suas ovelhas, dizendo que ele era um amador e que não sabia controlar as emoções. O pastor que chorou não se descontrolou, não surtou nem se mostrou histérico. E merece elogios exatamente porque não foi um profissional de religião, mas um amador. Benditos sejam os amadores assim!

O segundo é respeito. Por vezes a pessoa chega e abre o seu coração, contando-nos um pecado que julgamos ser escabroso (e às vezes é mesmo). Então ficamos chocados com a revelação e mostramos à pessoa que não esperávamos aquilo da parte dela. Ou ela nos ataca ou ataca alguém da igreja. O conselheiro, muitas vezes, é machucado pelo aconselhando. Qual deve ser a reação numa circunstância dessas? Kaller, em uma obra sobre aconselhamento cristão, usa esta figura: uma pessoa não crente se aconselha com o pastor, e lhe diz: “Os membros de sua igreja fazem pior do que as pessoas que não são crentes”. Ele alista quatro possíveis respostas do conselheiro, e entre elas duas bem curiosas. O conselheiro poderá dizer: “Você não sabe nada; pior que você não há nenhum” ou “Os crentes têm suas falhas, mas as falhas dos não crentes são piores”. Diz Kaller: “Esta reação não facilitará a continuação da conversa, mas é o início de uma discussão”. Ele mostra duas respostas que seriam mais viáveis: “Você acha que muitos crentes não vivem de acordo com suas crenças?” ou  “Você acha os não crentes melhores que os crentes?”[2] .

Na primeira resposta viável, o conselheiro circunscreveu a questão a uma opinião pessoal do aconselhando, e não a deixou como um absoluto. Na segunda, deixou a porta aberta para o aconselhando continuar a expor sua mágoa. Em nenhum dos dois casos ele deixou a questão descambar para o bate-boca.

Respeito significa valorizar a pessoa, não a vendo como uma coitadinha ou uma leprosa moral ou espiritual. É vê-la como sendo uma pessoa, imagem e semelhança de Deus, valiosa aos olhos do Senhor, que no momento passa por uma crise e veio lhe pedir ajuda. Não esfregue sal e pimenta nas feridas dela. Respeite seu desabafo, suas atitudes, e sua postura. Isto é diferente de aceitar um comportamento errado. É respeitar a pessoa que está querendo ajuda como pessoa. Não é um traste. Lembremos que Paulo recomendou que apoiássemos aqueles que estão fracos.

O terceiro é sigilo. O que um conselheiro ouve deve morrer com ele. Ele não passa para frente nem mesmo com pessoas interessadas no assunto. Muitas vezes alguém me procura e depois uma pessoa da família ou do relacionamento com esta pessoa vem me perguntar o que foi dito. Geralmente me nego, dizendo que o que a pessoa me contou pertence ao sigilo. Se quiser saber, que meu indagador lhe pergunte. Lembre-se que comentar o que lhe foi dito em confiança acabará não apenas com sua atividade, mas com seu caráter. E você terá traído quem confiou em você. Poucas coisas são tão ruins para um pastor ou para um conselheiro que ser conhecido como fofoqueiro, como alguém que passa para frente coisas que ouviu em confidência. Há pastores que contam de púlpito experiências de gabinete. Não citam o nome da pessoa, mas deixam pistas claras de quem sejam. Isto é muito ruim.

Abrir o coração com alguém é tarefa difícil. Muitas vezes é um desnudar da alma, e é doloroso para a pessoa. Já ouvi muitos casos tristes e dolorosos em gabinete, desde violência sexual que uma criança sofreu por parte de pai até o uso de drogas por líderes da igreja. Por vezes, o peso era esmagador e eu me sentia deprimido, querendo um buraco para me enfiar. Mas sabia que não podia partilhar com ninguém. Um conselheiro deve ser sigiloso. Por isso que deve ser uma pessoa que cuide de sua vida espiritual e se fortaleça, sempre, com o Grande Conselheiro, Deus. É a vinha dele que ele deve guardar.

O quarto é sobriedade. O Novo Testamento faz várias referências à sobriedade. Nós é que pouco mencionamos esta virtude cristã. Há líderes que amam holofotes ou são pouco discretos. Têm grande necessidade de atenção.  Jesus exortou à discrição na vida espiritual, quando deixou recomendações sobre a oração e o jejum. Sobriedade tem a ver com discrição. Não se faz alarde de que estamos ajudando alguém. O trabalho do conselheiro é um trabalho de bastidores, que se faz nos bastidores, e não em público. Como o aconselhamento envolve questões emocionais, e por vezes delicadas, o conselheiro deve lembrar que a imagem do aconselhando deve ser poupada. Repreensão pública ou conselhos dados em voz alta prejudicam muito. Ninguém precisa ouvir a conversa. Por isso, quando atender, fale baixo. Uma das tarefas do conselheiro é ajudar a pessoa a ser madura e tomar decisões por si, orientada pelo Espírito Santo. Outra tarefa é levantar a pessoa. Neste sentido, expô-la em público, como alguém tutelado, é prejudicial. Somos conselheiros e não pais de criancinhas travessas que devem ser chamadas à atenção.

Há conselheiros que gostam de publicidade para que os demais vejam como ele é importante ou como está sendo usado por Deus. Remo Machado, psicólogo cristão, faz esta afirmação, em uma de suas obras: “Caso Deus seja o centro de nossa vida, ele tem um plano para nossa existência, e se ele nos delegou a posição de psicoterapeutas, devemos usá-la para enaltecimento do nome de Deus, e não para o nosso engrandecimento pessoal” [3]. Sobriedade é esta característica assumida de que somos apenas instrumentos, a glória é de Deus, fazemos o que temos que fazer e saímos de cena, sem esperar aplausos ou reconhecimento. O conselheiro não faz alarde do seu trabalho.  A vaidade sempre é notada, sempre desgasta o vaidoso e geralmente cobra um preço muito elevado. E as pessoas que aconselhamos não devem ser vistas como troféus a exibir.

O quinto é desprendimento. Isso significa que o conselheiro não deve levar vantagem na tarefa de aconselhar. Por vezes, o conselheiro é profissional, um psicólogo ou outro tipo de terapeuta. Neste caso, ele cobrará consultas. O levar vantagem, neste contexto, significa que o conselheiro não usa as informações que recebe, nem antes nem depois do processo de aconselhamento.  Suponhamos que o conselheiro seja o pastor ou o líder de um trabalho. Um irmão o procura e lhe revela um problema e pede ajuda. Não será justo o conselheiro divulgar publicamente uma possível incapacidade da pessoa para o exercício de uma função para a qual ela vier a ser indicada. Evidentemente que se for um caso grave, como uma pessoa que tenha tendências pedófilas sendo indicada para cuidar de crianças, o conselheiro precisará agir. Mas isso exige cautela. A questão principal é de ordem pessoal: não levar vantagem. Não impugnar a pessoa para um cargo ou função porque tem outro nome que é seu preferido ou porque o ambiciona, etc. Deve se lembrar também que Cristo pode transformar uma vida e que um pecado que uma pessoa cometeu no passado não será, necessariamente, cometido outra vez pela pessoa.

O sexto é capacitação. Já tangenciamos este aspecto anteriormente. Trata-se da capacitação para o serviço a desempenhar e da capacitação espiritual para poder desempenhar o serviço.  Precisamos ter em mente que nenhum de nós, como líder cristão, é um produto acabado. No que se presume ser sua última carta, já idoso, Paulo pede a Timóteo: “Quando vieres, traze a capa que deixei em Trôade, em casa de Carpo, e os livros, especialmente os pergaminhos” (2Tm 4.13). Os especialistas distinguem entre “livros” e “pergaminhos”. O primeiro termo aludiria a obras seculares, e o segundo teria o sentido de livros canônicos, isto é, os escritos sagrados. Ele está detido na cadeia, e prestes a ser executado, mas ainda quer os livros. O obreiro cristão em geral e o conselheiro em particular sempre devem querer crescer.  Adquirir livros, ouvir palestras, fazer cursos, tudo isso ajuda muito o conselheiro. Mas o preparo espiritual nunca pode ser negligenciado. O Pr. Falcão dá como sendo um dos aspectos mais importantes na vida do conselheiro ao ajudar alguém em crise: “Orar por si mesmo e colocar-se nas mãos de Deus para prestar uma ajuda afetiva” [4]. Desempenhamos uma atividade espiritual e nunca podemos nos esquecer disso. A autoridade espiritual que vem da comunhão com Deus e da submissão à sua Palavra é sempre notada na vida de quem a tem. E quem a tem não precisa alardear.

3. ALGUMAS ATITUDES NECESSÁRIAS AO CONSELHEIRO
Tendo considerado algo do perfil do conselheiro, vejamos algumas atitudes que ele deve tomar quando exerce seu papel.

Primeiro: ele deve proceder sem preconceito quando aconselha. Pode ser que a pessoa aconselhada esteja em pecado e deva ser orientada quanto a isso, mas não compete ao conselheiro, como conselheiro, condená-la. No aconselhamento não se prega. Conversa-se e se mostra à pessoa a situação em que ela se encontra e as alternativas a tomar na sua vida. Em outras ocasiões, o conselheiro administrará conflitos de relacionamentos entre partes. Deve evitar se posicionar contra um ou contra outro. Ele deve ser uma ponte e não um juiz. Pode ser que a questão esteja bem clara e ele tenha uma posição bem definida, mas deve se lembrar que está ali para conciliar partes.

Já me aconteceu, em passado remoto, aconselhar um líder da igreja com problemas de drogas. No íntimo, por dentro, fiquei muito indignado com este comportamento vindo de um líder em que eu e a igreja confiávamos, mas sabia que perderia a pessoa se manifestasse este sentimento. Ela já estava bastante frustrada e envergonhada. Não manifestei minha postura de censura. Ela já sabia que estava errada. Tratamos de como superar a situação. Mostrei-lhe empatia. A pessoa superou o problema e até hoje está na liderança (pedi permissão a ela para citar o evento, sem nomear e localizar, e ela me concedeu). Precisamos ter muita cautela e lutar para impedir que nossos sentimentos pessoais de aceitação ou rejeição nos levem a tomar atitudes que bloqueiem o processo de aconselhamento.

Segundo: ele deve evitar dar ordens. Inconscientemente, o conselheiro tem o desejo de dominar e exercer controle na vida da pessoa aconselhada. Até porque se sente em condições de orientar a outra parte. Nosso papel é levar a pessoa a ver a vontade de Deus para sua vida. E precisamos ser humildes para reconhecer que nem sempre a vontade de Deus é a nossa, como conselheiros. Podemos mostrar à pessoa as opções e as conseqüências das opções, mas deve ser deixada com ela a decisão a tomar. É assim que ela amadurecerá. Quando dizemos às pessoas o que fazer, elas criam dependência emocional. E isto não é bom. O conselheiro poderá dizer que executou bem sua função quando a pessoa chegar a um ponto em que o aconselhado não mais precisar mais dele como orientador. Essa idéia de “guru” ou de um mentor que tutoreia a pessoa a por toda sua vida não é uma medida salutar. É antibíblica. Conforme Efésios 4.13, o exercício de dons na igreja é para que os crentes cheguem “ao estado de homem feito, à medida da estatura da plenitude de Cristo” (Ef 4.13). Conduzir alguém pela mão por toda a vida não faz desse alguém uma pessoa neste patamar de adulto em Cristo. Há muito manipulador querendo ser mentor.

Terceiro: o conselheiro deve cultivar objetividade e não ser envolvido emocionalmente.  Não confunda as coisas nem tente fazer “pegadinhas”, dizendo que isto é o oposto da empatia mostrada como necessária. Terapeutas profissionais não devem aconselhar parentes ou pessoas a eles ligadas emocionalmente. Sua análise sempre será prejudicada porque terá envolvimento emocional.  Há uma linha divisória entre empatia e envolvimento emocional. A empatia é produto da misericórdia cristã. O envolvimento sucede quando o conselheiro se sente perturbado porque aquilo o atinge diretamente. Por vezes, ele está passando por um problema semelhante ao que a pessoa que lhe procura está passando e sente desnorteado, ou sem condições de fazê-lo. Não é errado um conselheiro ter problemas e passar por lutas, é preciso dizer neste contexto. O problema é quando o aconselhando está numa situação idêntica e o conselheiro sente que está sem condições.

A eficácia do aconselhamento, neste caso, será reduzida. Ao mesmo tempo, em contrapartida, o conselheiro poderá ver nesta situação como a pessoa está sofrendo. Mas sua orientação poderá ser apenas um reflexo do que ele faria. E as pessoas reagem de maneira diferente. O conselheiro poderá mostrar um caminho que ele tem condições de percorrer, mas talvez a outra pessoa não tenha. Ele precisará refletir bastante, orar e ter humildade para, se for o caso, dizer à pessoa que naquele momento não poderá ajudá-la. Se tiver certeza de que estará mais capacitada exatamente por estar vencendo o problema, deve ajudar. Mas se estiver sendo abatida pelo problema, terá pouco o que dizer. E deverá ter a humildade de reconhecer isto.

4. Saber filtrar o que está sendo dito. Nem sempre as palavras revelam. Por vezes mascaram. Para filtrar bem, o conselheiro precisa de um bom filtro (ou um coador). É oportuno lembrar que vivemos numa sociedade massificada pelo egoísmo e que as pessoas, em sua maior parte, têm motivações egoístas. Até mesmo na área espiritual. O conselheiro precisa ter um bom parâmetro para avaliar e orientar. Por exemplo: qual é a finalidade da vida? É a busca de felicidade? É o que as pessoas buscam, e o que muitas pregações sinalizam. Mas é este o propósito de Deus para nós?

Cabem aqui as oportunas palavras de Larry Crabb:

Veja os títulos de tantos livros cristãos da atualidade: “O segredo cristão de uma vida feliz”; “Desenvolva todo o seu potencial”; “A mulher total”; “A mulher completa”. Muitos contêm conceitos excelentes e verdadeiramente bíblicos, mas sua mensagem, clara ou implícita, às vezes nos dirige mais à preocupação com a auto-expressão e menos a um interesse em conformar-nos com a imagem de Cristo. A Bíblia, porém, ensina que, seu eu permanecer em obediência na verdade, a fim de tornar-me mais com Deus e assim torná-lo mais conhecido, o resultado será finalmente a minha felicidade. [5]

Um problema muito sério é que os crentes estão buscando felicidade, e não mais santidade, como se pudessem ser felizes à parte de sua comunhão com Deus.  Com esta visão, a vida cristã passa a ser a busca de satisfação de necessidades pessoais (algumas irrelevantes e supérfluas). É um conceito mundano. Assim, o trabalho do conselheiro passa a ser mais o de um terapeuta secular, levando as pessoas a se aceitarem como são e a buscarem necessidades muitas vezes mundanas, que um servo cristão que ajuda os crentes na sua caminha a uma vida mais profunda com Deus. Muitos dos problemas espirituais e emocionais não estão ligados à área espiritual ou da vontade de Deus, mas a projetos pessoais que os indivíduos têm, muitos deles modelados pelo padrão do mundo. Eles não alcançam tais projetos e se frustram. Tenho observado, em quarenta anos de ministério (o que não me torna infalível, mas me faz entender muitas coisas) que grande parte da aflição dos crentes é por coisas das quais não precisam e sem as quais pode viver. Mas deixam-se modelar pela massificação mundana de uma sociedade materialista que espiritualmente é decadente. Eles querem ser como o mundo. E querem as coisas que o mundo quer.

O conselheiro deve ter em conta que lidará com muitas pessoas que têm problemas por causa de necessidades que não devem ser atendidas. Cito Crabb, a respeito:

Os conselheiros cristãos devem ser sensíveis à profundidade do egoísmo na natureza humana. É temerosamente fácil ajudar alguém a atingir um alvo não-bíblico.  É nossa responsabilidade, como membros do mesmo Corpo, continuamente recordar e exortar uns aos outros a fim de manter em vista o alvo de todo verdadeiro aconselhamento: libertar as pessoas para que possam melhor adorar e servir a Deus, ajudando-as a se tornarem mais semelhantes ao Senhor. Em suma, o alvo é maturidade. [6]

A atividade de aconselhar biblicamente não é a de dar pirulitos a crianças frustradas, mas ajudar as pessoas a entenderem o propósito de Deus para a vida delas. Há uma diferença enorme entre desejos e necessidades. É preciso saber a distinção entre os dois. E o conselheiro, algumas vezes, terá que levar a pessoa a entender isso.

CONCLUSÃO – UMA PENÚLTIMA PALAVRA
Como obreiros que querem o bom andamento da obra de Deus, podemos cair num estado emocional comum a muitos: a impaciência por não vermos os frutos imediatos do nosso trabalho. Orientamos uma pessoa com zelo e bastante cuidado, mas vemos que apesar de nossa orientação ser clara ela continua apresentando as mesmas falhas. Lembremos que muitas vezes o problema vem se arrastando há tempos, e a pessoa demorou a pedir auxílio. Desconstruir o que foi construído de maneira errada e reconstruir de maneira certa nem sempre se consegue em prazo curto. Voltando a Collins:

Muitos conselheiros ficam desanimados e até ansiosos quando não vêem progresso imediato em seus aconselhandos. Os problemas geralmente levam muito tempo para se desenvolverem e presumir que eles desaparecerão rapidamente por causa da intervenção do conselheiro não é uma postura muito realista. Mudanças instantâneas acontecem, mas são raras. O mais comum é levar um tempo até que o aconselhando abandone sua maneira de pensar e seu comportamento anteriores, substituindo-os por algo novo e melhor. [7]

Assim sendo, não se culpe se não vir resultado imediato ou se a pessoa custar a aceitar sua orientação. Sua missão não é produzir resultados, mas fazer o melhor que puder, na dependência do Espírito Santo. O resto compete a Deus, que fará a obra no tempo dele. Que sempre é o certo.

[1] COLLINS, Gary. Aconselhamento cristão – edição século 21. São Paulo: Vida Nova, 2004, p. 47.
[2] KALLER, Donaldo. Aconselhamento cristão – uma introdução. Patrocínio: CEIBEL, 1975, p. 25.
[3] MACHADO, Remo Cardoso. Psicoterapia centrada na Bíblia. Rio de Janeiro; JUERP, 1993, p. 122.
[4] FALCÃO SOBRINHO, João. Aconselhamento cristão em tempos de crise. Rio de Janeiro: UFMBB, 2004, p. 41.
[5] CRABB, Larry. Aconselhamento bíblico efetivo. Brasília: Refúgio, 1999, p. 17.
[6] Ib, ibidem, p. 18.
[7] COLLINS, op. cit., p. 31.

ACONSELHAMENTO PASTORAL OU ACONSELHAMENTO PSICOLÓGICO?


Pr. Isaltino Gomes Coelho Filho
Apresentado aos alunos do Centro de Formação Pastoral do Amapá


1. QUESTÃO PRELIMINAR
Esta é a primeira questão que desejo considerar: o que estudaremos será aconselhamento pastoral ou aconselhamento bíblico? Muitos pastores têm se travestido de psicólogos e, nesta disciplina, muitos seminários têm se preocupado mais com aconselhamento psicológico que pastoral. Freud, Adler, Mortimer, Jung, Erickson e outros têm tomado o espaço da Bíblia. Pessoalmente, vi um professor da disciplina ironizar a Bíblia, quando depreciava seu ensino para formação do caráter e para resolução dos problemas emocionais das pessoas. Para ele, a área espiritual nada tinha a ver com a emocional e psicológica. A Bíblia podia ser usada para outras coisas, mas para o aconselhamento, ele, particularmente, “usava a ciência”. E segundo ele, este era o erro de muitos pastores “fundamentalistas”, o de prenderem-se à Bíblia e aos princípios e valores cristãos. Só a “ciência” podia ajudar as pessoas. Contraditoriamente, este professor era pastor, e aos domingos pregava sobre a autoridade e a suficiência das Escrituras, do púlpito que ocupava. Parece que tanto a autoridade quanto a suficiência eram parciais. Ou sua teologia era esquizofrênica.

Somos líderes cristãos, alguns de nós somos pastores e outros entre nós almejam serem pastores. Como pastores e líderes, temos que aconselhar as pessoas. Precisamos ser psicólogos para aconselhar o povo de Deus? Antes do surgimento da Psicologia, como se dava o aconselhamento? Não havia? Como a igreja fazia? Ela sempre errou?

Aconselhar não é algo restrito a psicólogos (se é que psicólogos aconselham). Pais aconselham, amigos aconselham, mulheres aconselham seus maridos (e bem-aventurados os que têm uma mulher sábia, e mais bem-aventurados quando prestam atenção aos conselhos dela!) e pastores aconselham. Nosso texto básico é a Bíblia e o seu ensino é a nossa linha de orientação. Ela não é “anticiência” nem “antipsicologia”. Ela é a Palavra de Deus, afirma a vontade de Deus, e os homens devem se submeter a ela. Ela não é negativa, no sentido de ser contra isso ou contra aquilo. Ela é, positivamente, a Palavra viva de um Deus vivo. Ela afirma o que Deus deseja que façamos e sejamos. Apropriando-nos da expressão contida em Romanos 12.2, podemos dizer que ela é a “boa, agradável, e perfeita vontade de Deus”. O Salmo 19 mostra a Palavra de Deus como o que há de melhor para orientar, formar, direcionar, acalmar e aconselhar a pessoa: “A lei do Senhor é perfeita, e refrigera a alma; o testemunho do Senhor é fiel, e dá sabedoria aos simples. Os preceitos do Senhor são retos, e alegram o coração; o mandamento do Senhor é puro, e alumia os olhos. O temor do Senhor é limpo, e permanece para sempre; os juízos do Senhor são verdadeiros e inteiramente justos” (Sl 19.7-9). Qualquer tentativa de tornar uma pessoa saudável e equilibrada e que ignore o valor da Bíblia será uma tentativa frustrada. Não há rumo seguro para a vida fora dela. Além disto, há a questão do senhorio de Cristo sobre nossas vidas. Como bem disse Lutero: “Não há uma área sequer de nossa vida que Cristo não diga: ‘É meu!’”.  O cristão é servo de Cristo e é regido pelas Escrituras em todas as áreas de sua vida.

2. ENTÃO, A PSICOLOGIA É RUIM?
Não é a questão se a Psicologia, como ciência que alega ser, é ruim ou não. A questão é que ela não é a palavra última sobre o homem, sobre valores, sobre a vida. E no momento exato em que qualquer um de seus princípios colida com a verdade cristã, ela deve ser rejeitada. Psicólogos não são Deus nem foram homens inspirados por Deus para escrever a nova revelação. Este é o ponto.

Para considerar melhor este tópico, fiquemos com uma aguda observação de Powlinson:

A área do aconselhamento tem se divorciado da Palavra. Na mente da maioria das pessoas, aconselhamento é algo essencialmente diferente da pregação. As verdades e os métodos usados no aconselhamento são raramente concebidos como o ministério da Palavra dirigida sob medida a um indivíduo. A maioria daqueles que acreditam na Bíblia diria com facilidade “Prega a Palavra”. Eles se levantariam revoltados diante de uma pregação cujo conteúdo fosse qualquer outro que não a Palavra. Em geral, os crentes concordam que a verdade revelada em Deus deve controlar o púlpito. A Palavra é verdadeira e suficiente para o ministério dirigido às multidões. Entretanto, não é natural dizermos: “Aconselhe a Palavra”. A maioria daqueles que acreditam na Bíblia rendem-se diante de conselhos não-bíblicos. A Palavra é apenas um recurso entre vários recursos possíveis, tanto nos livros de auto-ajuda como na sala de aconselhamento ou ao redor da mesa da cozinha. A Palavra tende a ter um papel secundário, adicionada a uma mensagem que lhe é alheia. Ou talvez não tenha mesmo papel algum, tida como insuficiente para lidar com os problemas das pessoas (…). Jay Adams expressou bem esta questão: “A Palavra deve ser ministrada no aconselhamento com tanta prontidão quanto na pregação”.  [1].

Não se trata, portanto, de afirmar se a Psicologia é boa ou ruim, mas de afirmar a autoridade da Palavra de Deus em todas as áreas da vida humana. E podemos levantar outra questão dentro desta consideração: “De qual Psicologia está se falando?”. Sim, porque talvez seja mais correto afirmar que há Psicologias e não Psicologia. Num ensaio intitulado “Por que aconselhamento bíblico e não psicológico?”, John Street faz a seguinte observação:

O que é psicologia? Anda que seja um termo comum e com freqüência usado, sua conotação é equivocada. Definições populares e escolásticas cobrem uma ampla gama semântica a partir do processo de pesquisa científica para a teoria e prática terapêutica de doenças mentais biológicas a clínicas. Os sistemas incluem biopsicologia, psicologia experimental, psicologia cognitiva, psicologia do desenvolvimento, psicologia clínica, psicologia social, psicologia industrial-organizacional, e psicologia transcultural. Em adição, uma sortida de teorias psicoterapêuticas orienta muito dos sistemas psicológicos – psicodinâmicos, humanístico, existencial, sistemas familiares, comportamental-cognitivo, psicoterapia ou psicoterapia pós-moderna. Como afirmamos, a breve história da Psicologia está deleteriamente marcada com um numero incontável de modelos descartáveis. Em outras palavras, a psicologia está longe de ser uma disciplina especial. Seria melhor se referir a “psicologias”, uma vez que a pletora de teorias e sistemas atuais e passadas é abundante. [2]

Ainda que pareça má vontade contra a Psicologia e contra os psicólogos (e é preciso ressaltar que não é – trata-se apenas de não subordinar a Bíblia a ela), há uma referência mais a fazer, extraída do mesmo ensaio de Street:

A psicologia é uma disciplina científica?  A resposta para esta pergunta é, na melhor das hipóteses, discutível. Certamente há aspectos desta disciplina que usam raciocínios científicos rígidos cuidadosamente elaborados. Ainda assim, no entanto, as pressuposições a priori necessárias para trazer algum significado importante são patentemente evolucionárias. A psicologia é mais bem vista como uma cosmovisão materialista – behaviorismo, humanismo, determinismo, existencialismo, epifenomenalismo e simples utilitarismo pragmático. [3]

Esta consideração de Street merece ser bem pensada. Nada na estrutura da Psicologia é possível de comprovação. Assim como pensadores materialistas impugnam a Teologia, negando-lhe o caráter de ciência porque suas afirmações não podem ser provadas (Deus, alma, vida eterna, por exemplo), podemos lembrar que ego, id, superego são afirmações que não podem ser provadas como tais. São questões apenas opinadas. Da mesma maneira rotulam-se, mas não se provam certas atitudes: transferência, contratransferência, projeção, etc. São termos pomposos, mas que não podem ser provados. São opiniões. Até respeitáveis, até bem embasadas, mas são opiniões. Não se prova a alma, é verdade. Da mesma maneira, não se prova o superego.

Por outro lado, precisamos reconhecer também que a Bíblia não é um manual de aconselhamento. É outro aspecto que precisa ser analisado com objetividade. Ela não é uma enciclopédia contendo tópicos de aconselhamento que alistam o tratamento ou o remédio para os problemas das pessoas. Pinçar versículos bíblicos como calmantes ou estimulantes pode ser uma prática comum entre nós, mas não é a maneira correta de se usar a Bíblia. Mas assim mesmo, ela é a Palavra de Deus, e se temos uma compreensão do seu todo, podemos entender sua orientação para a vida do homem, tanto no todo como nos particulares.

Muitos dos conceitos da Psicologia são válidos e podem ser usados com segurança por um conselheiro cristão. Da mesma maneira, muito da técnica de aconselhamento psicológico pode ser aplicada ao aconselhamento bíblico e pastoral, também com segurança. Mas a atitude de dicotomizar a vida cristã, relativizando a autoridade e aplicabilidade da Bíblia à área espiritual da vida humana, é errada. Dizer que ela é a verdade espiritual, mas não é a verdade para a vida, os sentimentos e atitudes das pessoas é uma incongruência. E parece sem sentido um pastor, no púlpito, afirmar a suficiência da Bíblia para orientar a vida das pessoas, e mais tarde, atendendo uma das pessoas que estava no culto, negar esta suficiência e valer-se de orientação de homens que rejeitam a Bíblia e afirmam a absoluta animalidade do homem, negando-lhe qualquer traço de criação divina.


3. ERROS QUE DEVEM SER EVITADOS NO USO DA PSICOLOGIA
Não sendo uma disciplina a ser totalmente recusada, e podendo ser usada, a Psicologia precisa ser empregada com cautela pelos cristãos.

(1) O conselheiro cristão deve lembrar que a autoridade última é da Bíblia e não da Psicologia. Há muitos cristãos que aconselham pessoas com base em princípios e valores de pessoas sem Deus, e muitas destas são pessoas pervertidas. Tudo isso em nome da ciência ou do saber contemporâneo. Lembremos de 1Timóteo 6.3-5: “Se alguém ensina alguma doutrina diversa, e não se conforma com as sãs palavras de nosso Senhor Jesus Cristo, e com a doutrina que é segundo a piedade, é soberbo, e nada sabe, mas delira acerca de questões e contendas de palavras, das quais nascem invejas, porfias, injúrias, suspeitas maliciosas, disputas de homens corruptos de entendimento, e privados da verdade, cuidando que a piedade é fonte de lucro”. Chamo sua atenção para a expressão “não se conforma com as sãs palavras de nosso Senhor Jesus Cristo”. “Conformar” é “tomar o molde”. Em nome de uma pretensa erudição, muita gente abandona a autoridade e a suficiência das Escrituras. Como diz Paulo, “é soberbo, e nada sabe, mas delira…”. Muitas teorias psicológicas reivindicam uma base biológica completamente amoral para o comportamento humano. O pecado passa a ter uma justificativa biológica. Vez por outra se vêem balões de ensaio falando sobre o gene do adultério ou o gene da violência, por exemplo. E, em outras ocasiões, tudo é questão de condicionamento social ou cultural. E até mesmo racial. Sem o conceito de pecado, a moralidade se esvai e a santidade de Deus não tem nenhum sentido. Se não há pecado não há santidade. Se não a santidade de Deus não há pecado.

(2) O conselheiro cristão deve ser criterioso no uso da Bíblia. Não basta citá-la a torto e a direito. Ela não é um amuleto nem um talismã. Não é um livro mágico. Tampouco seus versículos podem ser isolados do contexto, como se fossem analgésicos. Isto implica em ter uma teologia sadia, produto de uma cosmovisão bíblica também sadia. Vi um bispo da Universal, pela televisão, defender o homossexualismo como sendo ação de demônios. Bastaria exorcizar a pessoa que ela perderia a prática. Expressões como “Você é escravo do demônio do medo, da ira ou da ganância” manifestam completa ignorância do ensino bíblico global, e não se constituem em aconselhamento bíblico. Creio na ação do Maligno, mas nossos pecados e nossos desvios de comportamento não podem ter uma análise simplista e reducionista assim. “Vamos quebrar a maldição das palavras de seu pai sobre você, e você nunca mais cometerá esse pecado”. Cometemos pecados porque somos pecadores. Erramos porque nossa personalidade é decaída. A compreensão correta da Bíblia e a prática de uma teologia sadia ajudam o conselheiro.

(3) O conselheiro não pode aceitar os padrões psicológicos que atribuem todas as nossas mazelas a doenças. Tal atitude elimina por completo a responsabilidade humana, minando assim o ensino bíblico e a teologia sadia. A este propósito, faço esta citação:

A idéia de que é doença a causa dos problemas pessoais vicia todas as questões da responsabilidade humana. Este é o ponto crucial da questão. As pessoas já não se consideram responsáveis pelos erros que cometem. Dizem que seus problemas são alógenos (gerados doutrem) e não autógenos (gerados em si mesmo). Em vez de assumirem responsabilidade pessoal por sua conduta, culpam a sociedade. [4]

Na realidade, a aceitação destes padrões psicológicos é a negação de todo o ensino linear das Escrituras e da teologia sadia. A visão alógena dos problemas faz da pessoa uma inocente e nunca culpável pedra de um jogo de xadrez. Ela nunca tem culpa, mas obedece apenas a uma mão que a manipula. Precisamos sempre ter em mente que por toda a Bíblia o homem é chamado a escolher e a decidir. O apóstolo Paulo disse que Deus o chamara para ser apóstolo desde o ventre de sua mãe: “Mas, quando aprouve a Deus, que desde o ventre de minha mãe me separou, e me chamou pela sua graça, revelar seu Filho em mim, para que eu o pregasse entre os gentios, não consultei carne e sangue” (Gl 1.15-16). Mas ele precisou decidir que obedeceria: “Pelo que, ó rei Agripa, não fui desobediente à visão celestial” (At 26.19). Em tudo tomamos decisões e somos moralmente responsáveis por elas. Lembremos que todo o ensino secular (na psicologia, educação, na sociologia, na filosofia e até na teologia liberal, que é uma secularização da teologia) se encaminha para aliviar a consciência humana, sem arrependimento e abandono do pecado. Há um esforço enorme em acalmar a consciência pecaminosa, sem orientá-la a deixar o pecado.

(4) O conselheiro precisa lembrar que vivemos sob o signo da cultura do Iluminismo, e que as ciências humanas seguem seus postulados. Um dos mais fortes pontos do Iluminismo é a crença na bondade inata do homem. Não existe pecado. A dessacralização do mundo e o abandono de um conceito elevado de Deus respondem pela noção da inexistência do pecado. No orientalismo, Deus é apenas uma força ou uma energia. Em certos segmentos evangélicos, é apenas um cuidador, abençoador ou pouco mais que a fada madrinha para nos agraciar com bênçãos. O abandono da imagem da santidade absoluta de Deus e da pecaminosidade do homem aumentam o impacto deste aspecto. O homem é bom, Deus não é um carrasco, todos os nossos problemas são passíveis de resolução com mais educação, etc.

O conselheiro cristão não piora a situação das pessoas. Não procura agravar seu estado emocional e espiritual. Ele não se preocupa em produzir emoções, porque isso não lhe compete, mas sim ao Espírito Santo. Mas ele não aceita o jogo da cultura secular que procura mitigar as emoções, vendo a culpa real como apenas “sentimento de culpa alógeno”. As pessoas podem ter sentimento de culpa sem serem culpadas. Podem ter sido traumatizadas. Mas, o homem sente culpa porque é culpado. A tarefa do conselheiro não é ajudar a pessoa a viver bem com seu pecado, mas sim levá-lo a ver que o pecado afasta de Deus e assim prejudica toda a vida da pessoa. O homem não é bondade absoluta. É mau, é pecador. É decaído.

(5) A tarefa do conselheiro cristão não é fomentar a cultura do egoísmo nas pessoas. A preocupação de muita gente hoje é consigo mesma, em viver bem, em uma zona de conforto emocional, sem tensão alguma, e mantendo controle sobre tudo e até mesmo sobre todos. Numa sociedade que cultua os bens, este egoísmo é fortalecido até em certas pregações evangélicas, que enfatizam mais o ter coisas que ter caráter. O triunfo não é sobre si, mas sobre as adversidades. E a religião se torna um meio de obter mais bens materiais, e não em ser santo.

Vivemos a era do bem estar, e não mais a da verdade. Na realidade, nossa época é a da “não verdade”. A verdade é irrelevante. O relevante é sentir-se bem. Assim vemos pessoas que abandonam a ortodoxia e se envolvem com seitas de ensinos exóticos porque lá se sentem bem com o louvor, ou com a koinonia, por exemplo. E, em muitas igrejas, o ministério do aconselhamento se tornou o “ministério da ajuda”. A linha é ajudar pessoas, e não mostrar às pessoas a verdade pela qual elas devem pautar suas vidas. Isto acaba trazendo um distanciamento dos padrões de Deus. Tem razão John Betler ao afirmar:

Mas aqueles entre nós que estão envolvidos com “ministérios de ajuda” como aconselhamento, treinamento em discipulado ou liderança de grupos de apoio talvez devessem estar especialmente atentos a ele, pois se defrontam tão freqüentemente com o sofrimento humano que se apressam em ajudar sem antes consultar ao Senhor e perguntar: “Este conselho é bíblico?” ou “Este método agradará ao Deus da verdade?”. [5]

As pessoas são consumidoras. O lema “Penso, logo existo” foi modificado. Defasou-se em nossa cultura. O atual é “Consumo, logo existo”. Esta visão permeia também a vida religiosa. Muitos dos próprios fiéis estão na igreja em busca de bênçãos, de entretenimento, de momentos agradáveis, sem compromisso. São consumidores espirituais. A competição por fiéis é feroz, na proliferação de igrejas. Então, boa parte dos pastores tem como preocupação maior a fidelização de clientes. Deve se dar aos freqüentadores da igreja o que eles querem. E eles querem apoio para seus projetos, confirmação para seus alvos de vida, e nunca admoestação ou correção. É a síndrome do fruto desejável. Na tentação ao primeiro casal, Satanás afastou da mente deles qualquer preocupação com a verdade e firmou o diálogo (Satanás é o primeiro conselheiro da história) em termos de apelo às necessidades emocionais e à ganância. E conseguiu: “Então, vendo a mulher que aquela árvore era boa para se comer, e agradável aos olhos, e árvore desejável para dar entendimento, tomou do seu fruto, comeu, e deu a seu marido, e ele também comeu” (Gênesis 3.6). O conselheiro cristão deve ter preocupação com a verdade revelada por Deus. Deve ter em mente que se o aconselhando não estiver firmado na Palavra de Deus, mas em bases opostas a ela, está, na realidade, sendo firmado sobre a areia.

CONCLUSÃO
Com toda probabilidade, estas afirmações desagradarão aos apaixonados pela ciência moderna, que vêem a Bíblia como livro restrito ao momento de nossa vida que chamamos de “culto”. Aliás, para muitos, ela só é autoridade numa frase na declaração doutrinária. Mas esta objeção me será irrelevante. O relevante é isto: precisamos compreender, com todas as nossas forças, que a Bíblia vem de Deus e tem orientação para nossa vida, em todas as áreas e níveis. E que qualquer objeção a ela é um erro.

O conselheiro deve ter as seguintes palavras que Paulo dirigiu a Timóteo como palavras que lhe cabem, em seu trabalho: “Conjuro-te diante de Deus e de Cristo Jesus, que há de julgar os vivos e os mortos, pela sua vinda e pelo seu reino; prega a palavra, insta a tempo e fora de tempo, admoesta, repreende, exorta, com toda longanimidade e ensino. Porque virá tempo em que não suportarão a sã doutrina; mas, tendo grande desejo de ouvir coisas agradáveis, ajuntarão para si mestres segundo os seus próprios desejos, e não só desviarão os ouvidos da verdade, mas se voltarão às fábulas. Tu, porém, sê sóbrio em tudo, sofre as aflições, faze a obra de um evangelista, cumpre o teu ministério” (2Timóteo 4.1-5). E que atente ele para os verbos: admoesta, repreende e exorta. São tarefas do conselheiro cristão. Que ele cumpra seu ministério sem ter comichão nos ouvidos, e regido pela santa Palavra de Deus.

[1] POWLINSON, David.  “Aconselhe a Palavra”, em Coletâneas de aconselhamento bíblico, vol. 2. Atibaia; Seminário Palavra da Vida, 2ª. edição, 2004, p. 2.
[2] STREET, John. “Por que aconselhamento bíblico e não aconselhamento psicológico?”, em MACARTHUR, John. Pense biblicamente – recuperando a visão Cristã do mundo. São Paulo: Hagnos, 2005, p. 315. O conceito de “psicologias” empregado por Street é tomado de empréstimo de Powlinson, que é professor no Westminster Theological Seminary, em Filadelfia, EUA.
[3] Ib., ibidem, p. 320, in médio.
[4] ADAMS, Jay. Conselheiro capaz. São Paulo: Editora Fiel, 1977, p. 24.
[5] BETLER, John. “Mantenha a verdade viva”, em Coletâneas de aconselhamento bíblico, vol. 2. Atibaia; Seminário Palavra da Vida, 2ª. edição, 2004, p. 7.

O LIVRO DOS SALMOS

MATÉRIA PREPARADA PARA A FACULDADE TEOLÓGICA BATISTA DE CAMPINAS

Prof. Isaltino Gomes Coelho Filho
(É proibido o seu uso em salas de ensino, sem a autorização do autor. Por favor, respeite os direitos autorais).
O livro de Salmos está colocado bem no coração da nossa Bíblia. O Salmo 117 é o capítulo central e 118.8 é o versículo central.  Das 283 citações diretas do AT (há ainda mais 79 alusões) encontradas no NT, 116 ou 40% são dos Salmos.  Elas foram tiradas de 97 dos 150 Salmos (65%) e encontram-se em 23 dos 27 livros do NT.
O grande valor dos Salmos está no seu conteúdo, pois eles têm sido uma das maiores fontes de inspiração para a oração e adoração a Deus.  Eles percorrem todas as escalas da experiência do homem com Deus, desde a mais profunda depressão (Sl 42.5,6,9-11) até a mais exaltada êxtase de louvor (Sl 145.1-5).  Enquanto os livros históricos mostram Deus falando acerca do homem, e os livros proféticos mostram Deus falando ao homem, os Salmos mostram o homem falando a Deus, abrindo seu coração e louvando-o em todas as circunstâncias por causa da sua fidelidade e misericórdia.  Aqui temos poesia, teologia, hinologia, etc.

1. TÍTULO – Em hebraico “Sefer Tehillim” = “Livro dos Louvores”.  A LXX deu o nome “Salmos” (“Psalmoi”), que é a tradução do termo hebraico “Mizmor” = “canções cantadas com acompanhamento de instrumentos de cordas”, e é usado com 57 dos 150 Salmos.  O NT usa este título em quatro lugares – Lc 20.42; 24.44 At 1.20; 13.33.  Um outro título hebraico, “Tephiloth” = “Orações”, foi usado também, baseado em Sl 72.20 que indica que os Salmos de Davi foram orações.
2. DATAS DO ESCRITO DOS SALMOS – 1430-530 a.C.= 900 anos; maioria entre 1010-931 a.C.
1430 a.C. 1010 – 970 a.C. 970-931 a.C. 931-900 a.C. 586 a.C. 530 a.C.
Moisés Sl 90 (+91) Davi, Asafe, Hemã, Etã (1Cr 25.6) Autores Anônimos Salomão, Sl 72, 127 Divisão do Reino Filhos de Coré * Exílio – Sl 137 Anônimo Restauração – Sl 126 Anônimo

Observações: * – Os Filhos de Coré – Há várias possibilidades da identidade deles:
(1) Filhos de alguém chamado Coré na época de Davi, ou depois da divisão do reino.
(2) Uma sociedade de músicos, fundada ou presidida por Coré (1Cr 12.6; 1Cr 25.1,6,7; 2Cr 20.19)
(3) Os descendentes de Coré, que junto com 250 príncipes, se levantou contra Moisés e morreu (Nu 26.10,11; Jd 11).
(4) Os filhos dos porteiros do tabernáculo (1Cr 9.18,19; Sl 84.10)
3. TEMA – Expressões de oração e louvor a Deus, em toda a experiência humana.
4. OBJETIVO DOS SALMOS
(1) Expressões de alegria, tristeza, medo, confiança pessoais dos salmistas diante de Deus.
(2) Expressões de louvor, adoração e petições coletivas do povo de Deus.
(3) Expressões de anseio de Israel pela vinda do Messias.
(4) Expressões de música usadas nas cerimônias e cultos do templo, festividades religiosas.
5. AUTORES – A metade dos Salmos (73 Salmos + Sl 2, 10 e 95 = 76 dos 150 Salmos) é atribuída a Davi. Por isso que a coleção dos salmos é chamada muitas vezes os “Salmos de Davi”. Mas 12 outros autores foram identificados pelas legendas dos títulos dos Salmos e também pelos tradutores da Septuaginta.
6. TÍTULOS DOS CAPÍTULOS  – Surgem muitas perguntas a respeito dos títulos ou inscrições ou dedicatórias dos Salmos.  Quando, por quem, e por que foram adicionados?  O que significam?  Cuidado – Temos que diferenciar entre o título e o comentário dos editores.
7. TIPOS DE TÍTULOS -  (Há 116 títulos dos quais 100 indicam um autor; destes 100, 73 são da autoria de Davi.)
1) 34 SALMOS NÃO TÊM TÍTULOS – São eles:  1, 2,  10, 33, 43, 71, 91,  93, 94, 95, 96, 97, 99,  104, 105, 106, 107,  111, 112, 113, 114, 115, 116, 117, 118, 119,  135, 136, 137, 146, 147, 148, 149, 150.
2) 52 SALMOS TÊM TÍTULOS SIMPLES – Ex. “Salmo de Davi;”  “Salmo; um cântico de Asafe.” São eles: 11, 13, 14, 15, 17, 19, 20, 21, 23, 24, 25, 26, 27, 28, 29, 31, 35, 36, 37, 40, 41, 47, 48, 49, 50, 64, 65, 66,  68,  72, 73,  79,  82, 83,  85, 86, 87,  90, 98, 100, 101, 103, 108, 109, 110,  138, 139, 140, 141, 143, 144, 145.
3) 14 SALMOS TÊM TÍTULOS HISTÓRICOS – Estas inscrições explicam a raiz histórica relacionada com o Salmo e que resultou em sua composição.  Ex. “Salmo de Davi, quando fugia de Absalão, seu filho”.  São eles: 3, 7, 18, 30, 34,  51, 52,  54,  56, 57,  59, 60,  63, 142.
4) 4 SALMOS TÊM TÍTULOS DEDICATÓRIAS – Estas inscrições dedicam o Salmo a um dia ou ocasião especial.  Ex. “Salmo de Davi; para memorial”;  “Salmo; um cântico para o dia de sábado”.  São eles: 38, 70, 92, 102.
5) 15 SALMOS TÊM O TÍTULO “CÂNTICO DE DEGRAUS” – Estas inscrições se referem aos 15 degraus em frente do templo ou simplesmente à ascensão ou subida que os peregrinos fizeram quando foram às festas anuais no templo, sendo que Jerusalém é situado num altiplano rochoso e o templo no topo do Monte Moriá na cidade.  Assim são chamados “Cânticos de Romagem (Ascensão)”.  São eles: 120, 121, 122, 123, 124, 125, 126, 127, 128, 129, 130 131, 132, 133, 134.
6) 31 SALMOS TÊM TÍTULOS ESPECIAIS -  Na realidade, 39 Salmos têm títulos especiais, mas 8 destes também têm títulos históricos e portanto já foram contados entre aqueles.  Estas inscrições são basicamente referências a instrumentos musicais, melodias hebraicas conhecidas naquela época, danças, etc.  Ex. “Ao regente do coro: para instrumentos de cordas (para o cantor-mor, sobre Neginote)”.  São eles: 4, 5, 6, 7, 8, 9, 12, 16, 22, 32, 39, 42, 44, 45, 46, 52, 53, 54, 55, 56, 57, 58, 59, 60, 61, 62, 67, 69, 74, 75, 76, 77, 78,  80, 81,  84,  88, 89,  142.
Observação – Os Salmos com o mesmo título que seguem uns aos outros foram sublinhados. É fácil notar que muitos foram agrupados quando foram colecionados e colocados no Livro dos Salmos.
8. DATA DE ACRÉSCIMO DOS TÍTULOS – Ninguém sabe com certeza; eis algumas conjeturas:
1) Antes da Septuaginta – Sem dúvida, os títulos existiram bem antes da tradução da Septuaginta feita cerca de 250 a.C., pois os tradutores da LXX incluíram os títulos, mas não tentaram traduzi-los.  Eles simplesmente adicionaram os títulos em hebraico (ex. Neghinoth, Mictam, Nehiloth, etc.) porque já na sua época, os significados em hebraico destes títulos tinham sido perdidos.
2) 430-400 a.C. – no tempo de Esdras – Há indicações que o escriba e sacerdote Esdras (veja Ed 7.6,10,21; Ne 8.1-6,9) fez uma revisão das Escrituras, no seu tempo, depois do exílio.  Pode ser que ele tenha adicionado os títulos.
3) Fizeram parte do texto original – Há muitos eruditos que acham que os títulos foram escritos pelos escritores dos Salmos, e que eles sempre existiam desde o início.  Os títulos foram colocados como sendo os primeiros versículos na Bíblia Hebraica.
9. DIVISÃO DOS TÍTULOS – Há dificuldades em entender o significado de muitos títulos, pois as palavras hebraicas com passar do tempo perderam seus sentidos.  A maior dificuldade existe em relacionar alguns títulos aos Salmos que os seguem, pois parecem não ter nenhuma ligação com o conteúdo do Salmo.  SEGREDO – no início deste século a chave que abriu este mistério foi achada.
1) Nos manuscritos hebraicos antigos, não havia nenhum espaço separando os Salmos.  Havia apenas um número na margem que indicava que um Salmo terminou e o seguinte começou.  Também, haviam estes títulos entre os Salmos que indicaram a divisão entre eles.  Sempre foi presumido que os títulos se referiam aos Salmos que os seguiam.  Porém, Dr. James W. Thirtle, ao examinar os Salmos, notou que muitos títulos, ou uma parte dos títulos, se relacionaram bem melhor com os Salmos que os antecederam.
2) Um estudo profundo levou ele e outros nos anos posteriores, a chegar à conclusão que muitos títulos devem ser divididos, com a primeira parte do título servindo como subscrição do Salmo anterior, e a segunda parte servindo como sobrescrito do Salmo seguinte.  A justificação para esta interpretação está na própria Bíblia:
a) “A Oração de Habacuque” em Hc 3.1-19;  a. Sobrescrito = v.1;  b. Oração = v.2-19a;    c. Subscrição =  v. 19b
b) “O Cântico de Ezequias” em Is 38.9-20;     a. Sobrescrito = v.9;  b. Cântico = v. 10-20a; c. Subscrição = v.20b
3) Esta confusão existia desde a Septuaginta.  Porque alguns são títulos aos Salmos que os seguem, supôs-se, equivocadamente,  que todos seguissem o mesmo padrão.
4) Muitos títulos devem ser divididos:
a. A 1ª parte do título = subscrição do Salmo anterior
b. A 2º parte do título = sobrescrito do Salmo seguinte
Exemplo – do título do Salmo 4:  “Ao regente do coro: para instrumentos de cordas” deve ser a subscrição do Sl 3;  “Salmo de Davi” é o sobrescrito do Salmo 4.
Exemplo – do título do Salmo 30: “Cântico para a ocasião da dedicação do Templo” deve ser a subscrição do Sl 29; “Salmo de Davi” é o sobrescrito do Salmo 30.
10. SIGNIFICADOS E POSICIONAMENTOS DOS TÍTULOS
PALAVRA SIGNIFICADO (provável ou possível) POSICIONAMENTO
Ajjeleth hashshahar “corça da manha”; talvez o título de alguma melodia hebraica fim do Sl 21
Alamot “cantoras virgens” fim do Sl 45
Al tachete “não destruas”; talvez uma melodia fim do Sl 56,57,58,74
Gitite “lagar”; refere ao fruto do outono, Festa dos Tabernáculos, preservação fim do Sl 7, 80,83
Jedútun “aquele que dá louvor”; o nome de um dos três diretores da música no templo; veja 1Cr 16.41,42; 1Cr 25.1-8; 2Cr 5.12 fim do Sl 38, 61,76
Jonate-elem recoquim “a pomba emudecida em terra longínqua”; Davi é a pomba fugindo de Absalão; talvez uma melodia hebraica fim do Sl 55
Machalath “a grande dança”; talvez alguma melodia fim do Sl 52
Machalath-Leanote “danças com gritos” fim do Sl 87
Maskil Salmo didático; instrução conhecimento início do Sl 32, 42, 44, 45, 52, 53, 54, 55, 74, 78, 88, 89, 142
Mictam “ignorada”; “gravada”; indicando ênfase e permanência; talvez um termo musical início do Sl 16, 56, 57, 58, 59, 60
Mutelabem “morte de um filho (campeão)”; refere-se à vitória de Davi sobre Golias (1Sm 17.4,23).  “Mute” = monte; “bem” = filho; “beym” = aquele entrando entre fim do Sl 8
Neginote; Nehiloth “instrumentos de corda” fim do Sl 3, 5, 53, 54, 60, 66, 75
Sheminith “oitava”; “baixo”; talvez o 8º grupo na procissão que trouxe a arca fim do Sl 5, 11
Shiggaion “cântico emocional em voz alta de alegria ou aflição” início do Sl 7
Shoshannim “lírios”; talvez alguma melodia; fala de flores, primavera, Festa da Páscoa,; libertação fim do Sl 44, 68
Shushan Eduth “lírios de testemunho; talvez uma melodia fim do Sl 59, 79
Nos 57 títulos  chamados “SALMO de DAVID, de ASAFE”, etc. (ex. Sl 3,4,76), a palavra “SALMO” é “MIZMOR”,  e significa “canção acompanhada com instrumentos de cordas”.  Nos 30 títulos escritos “CANÇÃO de ….”, (ex. Sl 46,120-134), a palavra hebraica é “SHIR” e significa “cânticos sem acompanhamento”.  Veja Sl 75 e 76 (os 2 termos).
11. “SELÁ” e “ALELUIA” – “SELÁ”, uma controvertida palavra que sempre se encontra no final de um versículo, com 4 exceções (Sl 55.19; 57.3; Hc 3.3; 3.9), é usada 125 vezes nos Salmos – 71 vezes no Livro 1, trinta vezes no Livro 2, vinte vezes no Livro 3, nenhuma vez no Livro 4, e quatro vezes no Livro 5.  Veja também Hc 3.3,9,13 (o Saltério Menor).  Em todos os Salmos onde ela ocorre, o título do Salmo menciona uma espécie de melodia.  Assim, “selá” deve ter sido um sinal musical ou litúrgico.  Veja Sl 9.16 onde se encontra a expressão “Higaiom Selá”, significando algum intervalo, entreato musical.
Veja exemplos em Sl 3.2,4,8; 4.2,4; 46.3,7,11; 47.4; 48.8.  Alguns acham que as consoantes da palavra “selá” são um acróstico que significa “mudança de vozes” ou “repetir desde o início”.
“ALELUIA” = Uma transliteração de duas palavras hebraicas “hallel” (louvar) e “Yah” (forma abreviada de “Yahweh”).  “Aleluia” significa “Louvai ao Senhor” e é usada cerca de 24 vezes nos Salmos, além de várias vezes em Crônicas, em Jz 5.2; em Jr 20.13; e quatro vezes em Apocalipse (Ap 19.1,3,4,6), o único lugar no NT.  Três grupos de Salmos são conhecidos como os “Salmos de Aleluia”.
a. Salmos 111-113 = Cada um começa com “Aleluia” (“Louvai ao Senhor” em algumas Bíblias).
b. Salmos 115-117 = Cada um conclui com “Aleluia” e Sl 117 também se inicia com “Aleluia”.
c. Salmos 146-150 = Todos começam e terminam com “Aleluia” (com exceção do término de 147, que é dividido em duas partes pela LXX (vv. 1-11 e vv. 12-20).
Se a última linha do Sl 104 é realmente a primeira linha do Sl 105, como parece que deveria ser, então os Salmos 105 e 106 também começam e terminam com “Aleluia”.
A palavra “aleluia” não é encontrada em nenhum Salmo de Davi.  Talvez seja uma expressão litúrgica para uso antifônico, em resposta à qual a congregação repete o 1º versículo depois de cada versículo consecutivo enunciado pelo dirigente.  Requer adoração em harmonia com louvor ao Senhor.
Os Salmos 113-118 – o Hallel Egípcio – foram cantados na Festa da Páscoa.  Portanto, o “hino” cantado por Jesus e seus discípulos na noite em que Ele foi traído (Mt 26.30), sem dúvida foi um destes ou todos estes Salmos.  Os Salmos 120-134, conhecidos como os “cânticos de degraus” ou “cânticos de romagem” ou “cânticos de ascensão” fizeram parte do Grande Hallel, os Salmos 120 a 136.
12. CLASSIFICAÇÃO DOS SALMOS – Há muitas maneiras de classificar os Salmos, e além disto, muitos Salmos se encaixam em mais do que uma categoria.  Segue-se uma divisão em oito categorias.
(1). ADORAÇÃO – Tratam do prazer em estar com Deus, na sua casa; exultam o culto.  Exemplos – Sl 24, 84, 100, 116, 122.
(2) LOUVOR – Exaltam a pessoa de Deus, louvam o seu nome e caráter.  Mostram relacionamento adequado com Ele.  Exemplos – Sl 29, 87, 103, 107, 114, 136, 150.
(3) SEGURANÇA – Mostram a proteção de Deus aos seus, o Seu cuidado na provação e como o fiel nunca está desamparado.  Exemplos – Sl 3, 4, 11, 16, 20, 23, 27, 31, 36, 46, 52, 57, 62, 63, 85, 91, 108, 121, 125, 126.
(4)  PENITENCIAIS – Tratam do pecado, da confissão, e da graça perdoadora de Deus.  Exemplos – Sl 6, 32, 38, 51, 102, 130, 143.
(5) MESSIÂNICOS – Referem-se ao messias, seu reino, sua pessoa, seu sofrimento.  Exemplos – Como Rei: 2, 45, 72, 110;  Como Sofredor: 22, 31, 69.
(6) IMPRECATÓRIOS – Trazem expressões de maldições, de ódio, de vingança.  Exemplos – Sl 35.8,9; 58, 69, 83, 109, 137.8,9.  (Estes Salmos são difíceis de explicar à luz de Mt 5.44; Rm 12.19-21; Pv 24.29; 25.21,22).
(7) SABEDORIA/DIDÁTICOS – Ensinam a sabedoria prática.  Exemplos – Sl 1, 37, 49, 73, 91, 112, 119, 133, 139.
(8) LAMENTO INDIVIDUAL/NACIONAL – Mostram queixas frente a tristeza, aflição por causa de calamidades nacionais, ameaças pessoais, acusações injustas, etc.  Exemplos – 5, 7, 12, 13, 17, 22, 44, 58, 63, 64, 90, 94, 108, 126, 137, 140;
13. NUMERAÇÃO DOS SALMOS – A maioria das versões modernas do Velho Testamento usadas pelos evangélicos são traduzidas do TM – Texto Massorético – escrito em hebraico, compilado e padronizado pelos rabinos massoretas, e baseado no texto aceito pelo Concílio de Jamnia, cerca de 100 d.C.  O texto hebraico original tinha só consoantes.  Os Massoretas, vivendo entre 500 e 1.000 d.C., evoluíram um sistema de vogais e escreveram anotações críticas para facilitar e resguardar a pronúncia tradicional e a transmissão fiel do texto hebraico.  Exemplo: As consoantes YHWH foram intercaladas com as vogais de Adonai e Elohim para formar YaHWeH (Javé ou Iavé).  Este nome foi considerado tão sagrado que, na base de Êx 20.7 (o 3º mandamento), ele sempre foi substituído pelo nome ADON ou ADONAI,  quando lido.
Um bom número das versões católicas, porém, se baseia na Vulgata, a tradução latina de Jerônimo (350-420 d.C.), que o Concílio de Trento, na Sessão IV, no dia 8 de abril de 1546 (após a Reforma) decretou a única versão autêntica e autorizada pela Igreja Católica Apostólica Romana, de todas as versões latinas.  Jerônimo fez sua tradução na base da Septuaginta (LXX), com referências ao hebraico e a Hexapla de Orígenes.  Mais tarde ele fez uma revisão usando o hebraico, mas as influências da LXX continuaram.  A Vulgata, que sofreu muitas revisões em 1592 e 1598, como a LXX, inclui certos livros apócrifos no AT, e tem uma ordem diferente de alguns livros e capítulos.  Por isso há uma diferença na numeração dos capítulos e versículos dos Salmos entre muitas Bíblias Católicas e as Bíblias Protestantes.
(1) O Texto Massorético contém 150 Salmos, e numera os títulos como o primeiro versículo do Salmo.  Portanto o número dos versículos na Bíblia Hebraica é geralmente um a mais do que em nossas Bíblias, que separam os títulos sem numeração.  Salmos 18, 51 e alguns outros têm títulos tão compridos que eles constam como dois versículos na Bíblia Hebraica.
(2) O Talmude (Sábado 16) contém 147 Salmos (um para cada ano da vida do patriarca Jacó – Gn 47.28); O Talmude (Berachote 9b) descreve os Salmos 1 e 2 como uma única composição.
(3) A Septuaginta contém 151 Salmos, um a mais do que as nossas Bíblias.  A versão do Salmo 151 em hebraico foi descoberta na caverna número 11 de Qumrã em 1947.  Na LXX:
a. Sl 9 e 10 constam como um Salmo só (Sl 10 continua o padrão acróstico do Sl 9).
b. Sl 114 e 115 constam como um Salmo só.
c. Sl 116 é dividido em dois Salmos separados.
d. Sl 147 é dividido em dois Salmos separados.
e. Sl 151 é acrescentado; um Salmo de sete versículos que tratam da vitória de Davi sobre Golias.
(4) A Vulgata segue a numeração da LXX e portanto muitas traduções católicas modernas fazem o mesmo.  Por exemplo, na tradução muito usada no Brasil do Padre Matos Soares:
Salmo 1 é igual ao nosso.
Salmo 2 divide nosso versículo 12 em versículos 12 e 13.
Salmo 3 coloca o título como o 1º versículo e contém 9 versículos. em total.
Salmo 4 coloca o título como o 1º versículo e divide nosso versículo  8 em versículos 9 e 10.
Salmo 9 coloca o título como o 1º versículo e portanto tem um total de 21 versículos.
Salmo 10 tem 18 versículos como em nossa Bíblia, mas acrescenta um segundo Salmo 10, que é nosso Salmo 11 em conteúdo.
Daí em diante os Salmos da tradução do Pe. Matos Soares sempre estão um atrás da nossa tradução, até o Salmo 113 (que é nosso Salmo 114).  Na tradução do Pe. Matos Soares, há dois Salmos 113 (Salmo 113A (vv.1-8), que corresponde ao nosso Salmo 114, e Salmo 113B (vss.1-18) que corresponde ao nosso Sl 115).  Porém, chegando ao final dos Salmos, o Salmo 146.1-11 e o Salmo 147.12-10 do Pe Soares correspondem ao nosso Sl 147.  Assim Salmos 148, 149, e 150 correspondem aos mesmos Salmos em nossas Bíblias.
14. A BASE UGARÍTICA
A evidência mais significativa a respeito da antiguidade do gênero literário dos Salmos acha-se nas poesias dos “Tabletes de Ras Shamra” descobertos pelos arqueólogos na antiga cidade de Ugarite, uma cidade da Fenícia no norte de Canaã, na época em que Israel saiu do Egito e conquistou a terra prometida.  Há tantos paralelos e semelhanças marcantes na fraseologia poética e na estrutura dos versos entre a poesia ugarítica e a poesia hebraica, que não resta dúvida que os hebreus adotaram o estilo poético que eles já encontraram em estado altamente desenvolvido entre os povos cananeus por eles conquistados.  Portanto, os Salmos não podem ser relegados simplesmente à época exílica ou pós-exílica.  Moisés e outros da sua época tinham conhecimento do estilo de paralelismo, etc., tão característico da poesia hebraica (Êx 15.1-18; Jz 5.1-32).  Veja também a literatura poética das profecias pré-exílicas (Os 6.1-3; Is 2.2-4; Is 38.10-20; Jr 14.7-9; Hc 3.1-19).
15. A TEOLOGIA DO SALTÉRIO
Apesar de serem escritos para comover e atingir o coração, as emoções, e não de convencer e apelar à mente, o intelecto, os Salmos contém muitos ensinos e conceitos teológicos.  O mais destacado é o conceito de Deus nos Salmos.
Uma das melhores maneiras de estudar os Salmos é de verificar como o Salmista pensa e se endereça a Deus nas várias situações de tribulação, de angústia, de alegria, etc., em que ele se encontra.  Segue-se uma lista de alguns dos atributos de Deus que se repetem muitas vezes nos Salmos:
1. Majestade na criação (Salmo 135)                            5. Juiz da humanidade* (Salmos 96, 98)
2. Onipotência, Onisciência, Onipresença (Salmo 139)   6. Guarda e vindicador dos oprimidos
3. Senhor da história humana                                        7. Justo, reto, santo
4. Rei, Governador, Legislador                                      8. Misericordioso, compassivo, fiel, pessoal
O Livro dos Salmos pode ser dividido em duas partes na base do nome hebraico de Deus contido nos Salmos.  Os Salmos 1 a 41 (Livro 1) e Salmos 84 a 150 (Livros 4 e 5) são SALMOS IAHVEÍSTICOS, porque o nome de Deus usado quase exclusivamente nestes Salmos é “Iahweh” (YHWH, Javé, Iavé).  Os Salmos 42 a 83 (Livros 2 e 3) são SALMOS ELOÍSTICOS, pois o nome muito usado no hebraico é “El” (Eloah, Elohim).
* O AT não ensina claramente a natureza do julgamento futuro e a vida futura dos ímpios e dos santos.  O conceito dos judeus da vida eterna era mais na ordem de uma sobrevivência por intermédio de uma posteridade feliz.  Não existem muitas referências explícitas a respeito à ressurreição; Jó 19.25,26 é uma exceção.  Esta é mais uma razão dos Salmos Imprecatórios pedindo julgamento e justiça agora, pois o conceito dos Salmistas sobre o futuro era nebuloso (Jó 7.7-10; Sl 6.5; 146.4; Ec 3.19-22; Ec 9.2,5,10).  Há uma revelação progressiva na Bíblia, não em termos de verdades ou meias verdades; isto é, qualidade de revelação, mas em termos de quantidade de verdades reveladas.
16. A IMPORTÂNCIA DO SALTÉRIO PARA JESUS
Na época de Jesus, o livro de oração e o hinário usados na sinagoga era o Livro dos Salmos.  Assim Jesus conhecia intimamente os Salmos.  Jesus citou os Salmos muito no seu ensinamento – exemplos = Mt 21.16 citando Sl. 8.2; Mt. 21.42 citando Sl 118.22; Mt 23.39 citando Sl 118.26; Jo 10.34 citando Sl 82.6; etc.  Veja Lc 24.27,44 sobre a exposição que Jesus fez no livro dos Salmos sobre si mesmo.  Jesus cantou uma parte do Halel (Sl 113-118)[1] com seus discípulos no final da celebração da última páscoa, a primeira santa ceia (Mt 26.30).  Jesus morreu com as palavras de Sl 22.1 na sua boca.  (Não havia crucificação naquela época, mas veja os detalhes em  Sl 22.6-8,14-18). O relacionamento de Jesus com os salmos foi tão grande que Agostinho se referiu a ele como “esse admirável cantor de Salmos”. E a igreja primitiva associou Jesus com Davi e não com o servo sofredor de Isaías. Ela foi buscar pistas de Jesus, no Antigo Testamento, no livro de Salmos. [2]
17. CÂNTICOS DE DEGRAUS (OS GRAUS) – (Cânticos de Ascensão ou de Romagem) – Os 15 Salmos incluindo Salmos 120 a 134.   Qual o significado deste título?
(1) Uma tradição judaica, tirada da Mishna, indica que estes Salmos foram chamados “Cânticos de Degraus” porque foram cantados, na ordem em que os temos na Bíblia, nos 15 degraus do templo que subiram do Pátio das Mulheres para o Pátio de Israel.  Porém, nada na Bíblia comprova que existiam exatamente 15 degraus.
(2) Lutero pensou que o título significava “hinos do coro mais alto.” (posição nos estrados ou nos degraus)
(3) Calvino interpretou o título como “hinos cantados numa tonalidade mais alta”.
(4) Alguns acham que o título significa que os hinos foram cantados quando Davi e o povo levaram a arca a Jerusalém (2Sm 6.5,12,15; 1Cr 13.6-8; 15.14; 2Cr 5.5 = “fizeram subir a arca”).
(5) Alguns acham que o título se refere aos hinos cantados pelo povo quando subia a Jerusalém para as grandes Festas – Páscoa, Pentecostes, Tabernáculos (Is 30.29).  O Salmo 121 foi cantado quando viram o Monte Sião, na última noite.
(6) Outros acham que os Salmos são pós-exílicos e, portanto, refletem os hinos cantados pelos judeus voltando a Jerusalém após dos 70 anos de cativeiro em Babilônia.
(7) Uma nova explicação surgida nos últimos tempos, está ligada ao título correto em hebraico.  A palavra hebraica usada 45 vezes no AT é MAALAH, que pode significar “subindo, ascensão, graus, degraus”.  26 vezes ela é interpretada pela palavra “graus” (ex. 2Rs 20.9-11; Is 38.8); 17 vezes ela é interpretada como “degraus” (ex. 1Rs 10.19; Ne 3.15; Ez 40.6).  O título literalmente deve ler “Um Cântico De Os Graus (Maalah)”.  Quais graus?  Os graus no grande relógio de sol de Acaz.  Como outros daquela época, o prédio sustentando o relógio solar era um edifício imponente, com dezenas de degraus subindo numa escada a uma altura considerável onde a sombra do ponteiro marcado cada grau podia ser visto.  Foi neste relógio solar que a sombra voltou 10 graus como sinal que Deus ia prolongar a vida do rei Ezequias por 15 anos (2Rs 20.8-11).
Mas quais são as provas que Ezequias tinha capacidade de escrever estes “Cânticos de os Graus”? Pelo menos cinco podemos considerar:
1.  Ezequias se mostrou o rei mais santo de todos os reis de Judá (2Rs 18.5-7).
2.  Ezequias purificou o templo e restaurou seu culto (2Cr 29.1-5) com uma grande ênfase sobre a música (2Cr 29.25,27,30).
3. Ezequias organizou o livro dos Provérbios (Pr 25.1) e provavelmente mexeu também no livro dos Salmos.
4. Ezequias escreveu cânticos (Salmos) como aquele registrado em Is 38.8-20.  Notem que no hebraico, o v. 20 inclui as palavras “com meus cânticos” depois da palavra “louvaremos”.  Esta pode bem ser uma referência aos 15 cânticos dos Salmos 120 a 134.
5. Há 15 Salmos de “Cânticos de os Graus”; a Ezequias foram acrescentados 15 anos.  O sol voltou 10 graus no relógio solar; 10 dos “Cânticos de os Graus” são escritos por um autor anônimo, 4 são de Davi, e um é de Salomão.  Estes 15 Salmos foram propositalmente organizados em 5 grupos de 3 Salmos cada (foi em 3 dias que Ezequias se levantou da cama de morte).  Em cada grupo, dois são de um autor anônimo e um de um autor conhecido.  O primeiro de cada grupo trata de dificuldades; o segundo de cada grupo trata de confiança; o terceiro trata de triunfo.
Será que o autor anônimo não  foi Ezequias, que humildemente não colocou seu nome, mas escreveu um cântico para cada grau em que a sombra voltou para trás, e depois adicionou mais 5 Salmos já escritos e conhecidos para fazer o total dos 15 anos que foram acrescentados a ele, colocando 2 cânticos dele junto com um de Davi ou Salomão em cada dos 5 grupos?
18. OS SALMOS MESSIÂNICOS
Os salmos mais reconhecidamente messiânicos são: 2, 8, 16, 22,  24, 40, 41, 45, 68, 69, 72, 87, 89, 102, 110, 118 (os principais estão sublinhados). Uma análise global deles nos mostra que eles enfatizam três temas messiânicos que são encontrados na teologia do Novo Testamento, em seu aspecto cristológico:
1) A humilhação e exaltação do Messias.
2) As tristezas presentes e o livramento  futuro de Israel.
3) As bênçãos futuras de todas as nações através do Messias reinante de Israel.
Estes temas foram bem assimilados na teologia do Novo Testamento, como mencionei anteriormente. Paulo tratou do primeiro em Filipenses 2.9-11, no texto clássico do esvaziamento de Jesus e o recebimento de um nome sobre todo o nome. Paulo não criou esta idéia baseando-se nos Salmos. Jesus havia falado de sua rejeição e de sua morte, mas também de sua ressurreição e segunda vinda. A comunidade cristã primitiva subsidiou as informações de Jesus sobre si mesmo com estas declarações dos Salmos e assim os interpretou. Vemos aqui o que foi dito na primeira palestra: o Novo Testamento interpreta o Antigo e o Antigo subsidia o Novo. Assim, Salmos foi tornado mais claro no Novo Testamento. Ao mesmo tempo, deu base teológica para o Novo Testamento.
As tristezas presentes e o livramento futuro de Israel foram abordados por Paulo em Romanos, do capítulo 9 ao 11. A questão foi descobrir como a comunidade anterior, a da antiga aliança, tema que estudamos na primeira palestra, teria seu espaço dentro do propósito de Deus. Crendo que Israel, mais uma vez, rejeitara a seu Senhor, e agora de maneira mais drástica com a morte de Jesus, os cristãos foram se perguntar: “e o futuro de Israel?”. Esta questão lhes era relevante até mesmo porque a maior parte deles se compunha, na época, de pessoas vindas da fé judaica.
As bênçãos para o mundo através do Messias foram a compreensão que a comunidade cristã primitiva teve de que o Messias não era apenas o Salvador dos judeus, mas do mundo inteiro. Não deixa de ser irônico que sendo tão exclusivistas a ponte de comporem uma canção pedindo que seus inimigos tivessem os filhos jogados nas pedras, os judeus tivessem alguns de seus cânticos trazendo bênçãos para seus inimigos. A comunidade cristã primitiva foi orientada pelo Espírito para ler nos Salmos o que Israel não conseguiu ler.
Quais aspectos da vida de Jesus os salmos messiânicos conseguiram contemplar? Alisto, a seguir, alguns deles. Não creio que tenha esgotado a lista, mas estes me parecem os mais notáveis. Vale a pena ver não apenas os tópicos, mas as passagens, e entender seu sentido.
1) Jesus é mostrado como sendo o Filho de Deus – Sl 2.7; 45.6-7; 102.25-27.
2) Jesus é mostrado como sendo o Filho do Homem – Sl 8.4-6, etc. Se no tópico anterior sua divindade é realçada, neste, sua humanidade é afirmada.                                .
3) Jesus é mostrado como sendo Filho de Davi – Sl 89.3-4,27,29. Basicamente, todo rei de Jerusalém era filho de Davi. Mas se o davidismo, que já mencionei anteriormente, estava em curso, a aplicação seria bem restritiva, ignorando-se o rei de Jerusalém, e projetando-se para uma figura por vir.
4) Jesus é mostrado como sendo Profeta ou o Arauto que apresenta os irmãos diante do Senhor – Sl 22.22, 25 e 40.9-10. Profeta, aqui, não é o pregoeiro de juízo, mas o arauto, que se chega diante do Rei Eterno e apresenta os irmãos menores, que somos nós.
5) Jesus é mostrado como sendo Rei – Sl 2; Sl 24; etc. O Salmo 24 parece ter sido composto para a entronização da arca em Jerusalém. Isto o tornaria altamente messiânico, pois a arca era um símbolo da presença de Deus com seu povo, como Jesus é a presença divina conosco.
6) Jesus é mostrado como sendo Divino – Sl 45.6-7; 102.25-27, texto que deve ser cotejado com Hebreus 1.8-14. Aliás, o autor de Hebreus vai se valer muito da idéia de Melquisedeque como um tipo de Jesus. Vai se abeberar nos Salmos, mais que em Gênesis.
APÊNDICE A “SALMOS MESSIÂNICOS”
Para completar o tópico “Salmos messiânicos”, acrescento uma palestra que preparei e apresentei em uma semana de estudos teológicos, na PIB de Nova Odessa, SP. Ela completa o item 18. A seguir, entramos no item 19, que trata dos salmos imprecatórios.
O MESSIAS NOS SALMOS

Primeira de quatro palestras preparadas pelo Pr. Isaltino Gomes Coelho Filho, para a PIB de Nova Odessa, 3 de julho de 2002


“Ainda tenho muito que vos dizer, mas vós não o podeis suportar agora”, disse Jesus aos seus discípulos (Jo 16.12). Jesus não conseguiu colocar tudo o que tinha para ensinar, na cabeça dos discípulos. O Espírito Santo viria completar seu ensino, como ele mesmo declarou: “Ainda tenho muito que vos dizer; mas vós não o podeis suportar agora. Quando vier, porém, aquele, o Espírito da verdade, ele vos guiará a toda a verdade; porque não falará por si mesmo, mas dirá o que tiver ouvido, e vos anunciará as coisas vindouras”. O ensino de Jesus seria completado pelo Espírito. O Messias não conseguiu se fazer entender por completo. As Escrituras, produto final do Espírito Santo, fariam isto. E as Escrituras do Novo Testamento surgiram, em boa parte, como necessidade da comunidade cristã primitiva em entender o Antigo Testamento no que ele dizia sobre o Messias.  Como veremos, depois, o livro de Salmos foi bastante explorado neste sentido.
Isto faz sentido. O fenômeno Jesus foi tão desnorteador que os discípulos não conseguiram entender tudo. Criados num rígido monoteísmo, na idéia da unicidade de Deus, os discípulos, de repente, tiveram a informação de que Deus era mais que uma pessoa. Era mais que Espírito. Era matéria, também. A noção de que Deus se fez homem na pessoa de Jesus pode nos parecer mais tranqüila, hoje, mas naquela época foi algo muito difícil de se aceitar. Afinal, no terceiro século do cristianismo ainda havia discussões teológicas para definir doutrinas sobre a pessoa de Jesus. Imaginemos os apóstolos, então.
A comunidade cristã primitiva teve que se explicar e teve que explicar o que acontecera com ela. Nota-se que os primeiros cristãos não estavam querendo sair do judaísmo. Eles se consideravam como judeus e ainda não tinham enxergado o alcance de sua missão e o de sua própria existência. Eles se viam como mais uma das muitas seitas judaicas e tentaram harmonizar sua situação com o judaísmo até o momento narrado em Atos 15. Em Atos 5.17, os saduceus são vistos como uma seita judaica. Em Atos 15.5, os fariseus é que são assim chamados.  Em Atos 24.14, o cristianismo é chamado “caminho” e tido como seita judaica. Paulo também o chama assim, em Atos 22.4. O nome se confirma em Atos 28.22, na boca dos judeus que moravam em Roma. O próprio Lucas o chama assim, em Atos 24.22. Eles tiveram que reinterpretar o judaísmo e as Escrituras do Antigo Testamento.
Nesta busca de se explicar e se justificar, a comunidade cristã primitiva se debruçou com seriedade e com a inspiração divina, no estudo do Antigo Testamento. Quando analisamos os sermões de Pedro, no dia de Pentecostes (At 2)  e no sinédrio (At 4) vemos que eles estão cheios de alusões ao Antigo Testamento. Chama a atenção o fato de que muitas destas passagens são do livro de Salmos.  A comunidade cristã primitiva descobriu que este era o livro mais adequado para se centrar na sua pregação e no exame do fenômeno Jesus. É curioso que textos que nos são tão preciosos, como Isaías 53 não são tão explorados como Salmos. Por quê?
POR QUE SALMOS?
A resposta é muito simples. O livro de Salmos trata dos anseios humanos. Eles, os salmos, nos falam de  sentimentos pessoais de frustração, de dor, de medo, de pedido de vingança. Falam da dependência de Deus, dos sonhos, das orações por justiça, por intervenção divina.  Mas também nos falam dos sentimentos coletivos. A nação pede ajuda quando está assolada por crise econômica motivada por seca ou por alguma praga de gafanhotos. Pede ajuda quando experimenta medo diante de um inimigo militarmente mais poderoso. Pede perdão quando experimenta o juízo divino. Espera socorro divino. Projeta sua confiança para um libertador ou um salvador. Tudo isto é material para dar substância a um Messias.
Os Salmos trazem também as expectativas espirituais dos judeus. Sendo poesia, eles eram o melhor veículo para que os fiéis expressassem suas perspectivas espirituais. O anseio pelo Messias não poderia ter melhor espaço que as canções e hinos entoados nos cultos, ao redor das fogueiras no campo, ou nas marchas pelo deserto. Os judeus veneravam suas Escrituras e faziam uso dela não apenas no templo e nas sinagogas, mas em todas as áreas da vida.  Como o livro de Salmos é o maior livro do Antigo Testamento, consequentemente teria que ser o mais citado pelos judeus, em seu uso das Escrituras. Aliás, é o livro do Antigo mais citado no Novo Testamento. A incidência do uso de Salmos em profecias acabaria sendo até mesmo uma simples questão matemática. Mas, o fato de serem expressões práticas de fé, os tornaram recomendáveis para subsidiar a figura do Messias.
Há um outro aspecto que deve ser considerado. Muitos dos salmos foram compostos para cânticos nacionais associados com a figura do rei de Jerusalém. Quando da entronização de um novo rei, por exemplo. A rebelião dos reis contra um deles produziu o Salmo 2, que da mesma maneira foi identificado como sendo um salmo messiânico. Era prefigurava o que aconteceria no futuro. É fácil de se entender isto. O rei de Jerusalém era da dinastia de Davi. Todos os reis de Judá eram descendentes de Davi.  Por mais desqualificado que fosse qualquer um deles, do ponto de vista espiritual, era um antecessor do Grande Rei, do Novo Davi, do Messias vindouro. Estes cânticos celebrando um momento específico na vida do rei de Jerusalém foram transpostos para a figura do Messias, Jesus Cristo, vendo a comunidade cristã primitiva neles um anúncio de algum aspecto da vida do Salvador. Até mesmo as crises pessoais do rei de Jerusalém acabaram prefigurando crises pessoais do Messias. Isto explica porque o livro de Salmos se tornou a maior base para se elaborar explicações sobre a pessoa de Jesus por parte da comunidade cristã  primitiva. Ele antecipou momentos da vida de Jesus.
O próprio Jesus reconheceu que os Salmos falavam dele, como vemos em Lucas 24.25-27, 32, 44-46.  Ele entendeu que havia neles um testemunho a seu respeito. Particularmente na conversa com os caminhantes de Emaús ele deixou isto bem claro.
19. OS SALMOS IMPRECATÓRIOS -  Os principais salmos imprecatórios são: 35.8,9;  58.6,10;  59.13;  69.27,28;  83; 109.8-10,12-13;  137.8,9.  Vinte uma imprecações menores se encontram em: Sl 5.10; 6.10; 28.4; 31.17,18; 40.14,15; 41.10; 55.9,15; 70.2,3; 71.13; 79.6,12; 129.5-8; 139.19-22; 140.9,10; 141.10; 149.7-9.  O que faremos com estas expressões à luz dos ensinamentos de Jesus que devemos amar os nossos inimigos (Mt 5.38-48) e na luz dos ensinamentos de Paulo que não devemo-nos vingar (Rm 12.19-21; 13.8-10; Pr 25.21,22; Lv 19.18)?
As objeções a eles são geralmente baseadas em  quatro argumentos:
1) Eles ferem os sentimentos humanos de compaixão e misericórdia (Gl 5.22;  Lc 10.33; Cl 3.12; Ef 4.32).
2) Eles ferem o fato que Deus manda chuva e sol sobre os justos e injustos igualmente, trazendo bem até para os piores dos homens (Mt 5.45; At 14.17).
3) Eles estão completamente contrários ao ensinamento e espírito do Novo Testamento (Rm 12.19-21; 1Pe 3.8,9).
4) Eles são incoerentes com a profissão de ardente confiança em Deus do próprio Salmista (Sl 27.1-3).
Para estas objeções, há algumas explicações:
1) Revelação Progressiva – quantidade das revelações, não qualidade; não do erro para a verdade, mas do parcial para o completo, do obscuro para o claro.  Assim no AT eles ainda não tinham a completa, clara revelação moral de Deus que temos no NT, e, portanto, expressaram ódio em vez de amor (Ex 6.2,3; Hb 11.13).
2) Tempo Futuro – Muitas das expressões imprecatórias estão no tempo futuro no original Hebraico, e assim expressam o que vai acontecer no reinado final de Jesus, e não o que o Salmista deseja.  Mas esta explicação não soluciona outros trechos como Sl 45.9 ou Sl 137.9 cujos verbos estão no tempo presente.
3) Antiga Dispensação – Estes sentimentos imprecatórios fazem parte da velha dispensação e, portanto, foram superados pela nova dispensação que começou com Jesus.  Mas existem muitas exortações e até mandamentos de Deus na velha dispensação que exigiam misericórdia e compaixão e não vingança (Lv 19.9-18; Dt 24.14-22; Pr 25.21,22).  Além disto, há expressões imprecatórias no NT (veja 2Tm 4.14; Gl 1.8,9).
4) Calamidades Temporárias – As imprecações pedem calamidades apenas temporárias que não afetam o estado eterno da alma.  Mas a atitude imprecatória ainda está errada em si mesma.
Estas explicações não me parecem as melhores, embora as respeite. Por isto alinho algumas outras que me parecem mais coerentes.
1) Dirigidos contra os transgressores em rebelião contra Deus (Ex. Sl 5.10).  O salmista vê o pecado na sua verdadeira natureza como rebelião contra Deus.  Ele se identifica com Deus contra o pecado, abominando-o como Deus o abomina (Sl 139.21,22).  O motivo da ira do salmista não é vingança pessoal ou ciúme ou ambição de um homem para com um outro que o tem ofendido.  Ele está perturbado porque a glória e santidade de Deus têm sido ofendidas.  Suas imprecações não são contra homens como homens, mas contra homens como inimigos de Deus.  Esta explicação do motivo atrás dos salmos imprecatórios explica pelo menos dois terços deles.
2) Rei Teocrático – Das 21 imprecações específicas, 16 são de Davi, um rei teocrático.  Ele sabia que foi ungido por Deus a fim de reinar em prol de Deus e que era responsável perante Deus.  Quando estava morrendo, Davi ordenou Salomão de punir os que tinham agido contra ele como representante de Deus (1Rs 2.5-10).  Os que lutaram contra Davi estavam lutando contra o ungido de Deus (1Sm 24.6,10; 26.9-11).  Nos Salmos imprecatórios, Davi também escreveu como rei teocrático, não como homem pessoal (veja Sl 59.11; 69.6; 40.9,10).  O que está na mira aqui é justiça pública, não vingança particular.
3) Anunciados depois que o salmista tinha mostrado bondade, a qual foi abusada e retribuída por mal da parte dos ímpios (veja Sl 35.12; 69.4; 109.5).  Temos que distinguir entre perdão e conivência.  É certo perdoar atos maus, errados – até 70 vezes 7 – mas se a atitude do ofensor não muda e ele continua deliberadamente no pecado e rebelião contra Deus, ao continuar perdoando tornamo-nos coniventes do pecado dele.  Temos que condenar o pecado enquanto tentamos resgatar o pecador.  É neste sentido que o espírito de alguns dos salmos imprecatórios é justificável.
4) O NT ensina que é possível irar-se e não pecar (Ef 4.26).  Esta é até uma citação do Sl 4.4.  Existe uma ira santa contra o pecado.  Apesar de Deus ser tardio em irar-se (Êx 20.5,6; 34.6,7), Ele de maneira alguma toma por inocente aquele que se rebela contra Ele.  Há muitos trechos bíblicos que mostram a ira de Deus (Êx 4.14; Nm 11.1; 32.13; 2Rs 17.18; Ap 14.19; 19.15, etc.).  Jesus também lançou fora do templo com veemência os cambiadores, pelo zelo da casa do Senhor (Jo 2.13-17; Sl 69.9).  A ira, quando surge porque a pessoa foi ofendida pessoalmente, ou porque alguém cruzou seus desejos, planos, ambições, direitos, é egoísta e pecaminosa.  Mas muito do que vimos e ouvimos hoje como “amor irrestrito” nada mais é do que um sentimentalismo insípido de uma pessoa que não tem princípios éticos e morais firmes, absolutos, e bíblicos na sua vida.  A ética da situação, a ética do relativismo tem afrouxado nossa cosmovisão do que é certo ou errado.  Deus é amor (1Jo 4.8,16), mas Deus também é santo (Lv 11.44; 19.2; 1Pe 1.16) e justo (Sl 11.7; 145.17).
Os salmos imprecatórios, portanto, são justificáveis nos seus motivos e espírito. São compreensíveis para aquela época e para aquele estágio da revelação, mas, realmente, não são cristãos.
20. OUTROS GRUPOS DE SALMOS
(1) SALMOS DE ALELUIA – Existem dez Salmos – 106, 111, 112, 113, 135, 146, 147, 148, 149, 150 – que são chamados “Salmos de Aleluia” porque cada um começa com a expressão “Hallelu-Yah” (traduzida em nossas Bíblias com as palavras “Louvai ao Senhor”) e todos menos dois (Sl 111 e Sl 112) também terminam com “Hallelu-Yah”.  Ela “é uma expressão litúrgica que conclamava os adoradores a participarem de uma das mais altas formas de devoção que podem ser oferecidas a Deus.  O termo é restrito aos cânticos de louvor nas Escrituras, e ocorre vinte e quatro vezes nos Salmos e quatro vezes no Apocalipse….  Na adoração coletiva, esta invocação ou exclamação era feita predominantemente nas festas da Páscoa, Pentecostes e dos Tabernáculos, embora, obviamente, também tivesse um lugar constante nas devoções particulares.  No período da sinagoga, o “Halel Egípcio” (Sl 113-118) era recitado como parte da cerimônia doméstica da Páscoa, sendo que os dois primeiros Salmos antecediam a refeição e os demais eram cantados no fim (cf. Mt 26.30).  Os Salmos 135-36 eram cantados no sábado, ao passo que o “Grande Halel” (Sl 120-136), ou Sl 135-136, ou Sl 145-150 eram cantados nos cultos matutinos.  O NT termina com um coro celestial bradando “Aleluia’, palavra esta que se tornou parte permanente da adoração cristã.”
(2) SALMOS PENITENCIAIS – Há sete Salmos assim classificados – 6, 32, 38, (39) 51, 102, 130, 143.  Alguns outros Salmos também contém trechos penitenciais.
(3) SALMOS MESSIÂNICOS  -
21. TRECHOS PROBLEMÁTICOS NOS SALMOS  (Exemplo = Sl 6.5; Sl 146.4; Ec 9.5,10)- Há vários versículos em salmos diferentes que são de difícil interpretação.  Vamos lidar com alguns.
(1) SALMO 5.4-6; 11.5 – Estes versículos, entre outros nos Salmos, ensinam que Deus odeia o pecador.  Juntando-os com Ml 1.2-3, parece que temos uma contradição com o ensinamento que Deus ama o pecador, mas aborrece o pecado dele (Jo 3.16; Rm 5.8-10).  Resposta – Somente Satanás “ama” o pecador na sua transgressão e oposição a Deus.  Deus ama o pecador porque ele é feito na imagem de Deus, mas vai – terá que, na base de sua natureza – punir o pecador que continua no seu pecado e rebelião.  Assim a santidade de Deus opera em amor e o amor de Deus opera em santidade; estes dois atributos de Deus não são opostos.  A visão do Salmista é que a ira de Deus cairá sobre os rebeldes no seu estado de oposição (2Ts 1.7-9).
(2) SALMO 30 – O título do Salmo “Cântico para a ocasião da dedicação do templo” parece tão estranho e impróprio para Salmo 30, que trata basicamente o louvor pessoal e gratidão de Davi pela cura (vs 2) e livramento da morte (vv. 3, 9).   Resposta – Este título não é o sobrescrito do Salmo 30, mas a subscrição do Salmo 29, que por sinal, é um Salmo excelente para ser cantado na dedicação do templo.  Trêss outras possibilidades são: o Salmo está se referindo à dedicação da CASA de Davi (2Sm 5.11); o Salmo está se referindo à consagração do altar na Eira de Ornan como se fosse a “casa do Senhor” (1Cr 21.26;22.1), e, por fim, a que me me parece melhor:. “casa” é também família e descendência. O Salmo trata da preservação da vida de Davi, em alguma enfermidade, o que permitiu que sua casa pudesse ser firmada.
(3) SALMO 34 – Este Salmo, em algumas Bíblias, tem por título “Salmo de Davi quando mudou o seu semblante perante Abimeleque, que o expulsou, e ele se foi”.  Segundo 1Sm 21.10-15, o nome do rei era “Áquis”, não “Abimeleque”.   Resposta – Este Salmo, que é o 3º Salmo acróstico (Sl 9,10 é o 1º e Sl 25 o 2º), tem um título que não aparece em todos os manuscritos vel antigos.  Portanto, algumas traduções da Bíblia deixam fora este título.  O rei Aquis provavelmente tinha um segundo ou outro nome que era “Abimeleque”, como: Gideão tinha o nome de “Jerubbaal” (Jz 6.32; 7.1), Salomão tinha “Jedidias” (2Sm 12.25), e Zedequias tinha o nome de “Matanias” (2Rs 24.17).  Uma outra possibilidade é que o nome Abimeleque era um título e não propriamente um nome, como “Faraó” era um título dos líderes egípcios, ou “César”, que era o nome da família de Júlio César, tornou-se o título dos imperadores romanos depois – César Augusto, César Tibério, César Cláudio, etc.  Uma prova deste nome dinástico é que o rei filisteu em Gn 20.2 foi chamado Abimeleque de Gerar.  Setenta e cinco anos depois, um outro rei filisteu foi chamado Abimeleque de Gerar (Gn 26.1). A tradução do nome é meu pai é rei ou o rei é meu pai. Esta me parece mais forte.
(4) SALMO 37.25,26 – “…nunca vi desamparado o justo, nem a sua descendência a mendigar o pão.”(veja também Sl 34.10; Pv 10.3).  Onde esteve o salmista  durante a sua vida?  Esta afirmação parece completamente falsa quando contemplamos nosso mundo com mais de 150.000 mártires cristãos por ano.  Incontáveis cristãos já foram perseguidos por sua fé, morrendo de fome.  O próprio Davi teve que pedir alimentação de Nabal para ele e seus companheiros na época em que fugiu de Saul (1Sm 25..11-13,18; veja também Hb 11.36-40).  Como podemos harmonizar a história e nossa observação/experiência hoje com este trecho bíblico e com versículos como Mt 6.25-33, etc.?    Resposta – Davi está fazendo um contraste do transitório com o perdurável, do temporário com o eterno.  Que sofreremos neste mundo não há dúvida, mas não seremos continuamente desamparados, destituídos (Jo 16.33; 1Ts 3.3).  Salmo 73.3-5,13-14,17,19,23 mostra que Asafe lutou com este problema.  Jesus também se sentiu abandonado na cruz (Mt 27.46) no sentido temporário.  Alguém disse que o moinho de Deus gira vagarosamente, mas ele mói muito fino.  Deus endireitará as coisas, e se o aparente “desamparo” não se resolve em nossa vida, pelo menos nossa “descendência” não mendigará pão.  Estes versículos (Sl 37.25,26) são escritos na forma de provérbio, e é a natureza do provérbio falar em generalidades -a maior parte da experiência – sem tratar das exceções.
(5)  SALMO 44.23-26 – (Veja também Sl 35.23; 73.20) – Deus dormindo.  Salmo 121.4 diz claramente que Deus não dorme, nem mesmo cochila (tosqueneja).  Segundo os Tabletes de Ugarite e 1Rs 18.27, Baal, o falso deus, é que dorme, mas Deus nunca.  Eis um esboço do Sl 44:
1. O Passado Glorioso – 44.1-8
2. O Presente Desastroso – 44.9-16
3. A Causa Desconhecida – 44.17-23
4. O Clamor Angustiante – 44.23-26
O problema é semelhante ao de Jó – “Por que o justo sofre”?  A filosofia dos amigos era “sofrimento é resultado do pecado” – Jó 4.7,8; 8.2-6. Resposta – Achado em Sl 44.22; nosso sofrimento nem sempre é por causa do pecado pessoal, mas por causa da batalha espiritual entre os inimigos de Deus e Deus, envolvendo assim os filhos de Deus.  Sl 44.23-26 é um pedido em termos figurativos, antropomórficos.  Deus como espírito não pode dormir, perder contato com a realidade.  O grito do Salmista é um grito militar.  Ele não está pedindo Deus acordar do sono, mas marchar em militância para defender seu Nome e seu povo.  Veja Jz 5.12 onde Débora usa esta expressão; também Nu 10.33-36.  O uso aqui é bem diferente do que em Ef 5.14 ou em Lc 8.24.  É verdade que Deus defere seus julgamentos, sua punição; que Ele está tolerante do ímpio muito além do merecido (2Pe 3.8,9), mas isso não deve ser confundido com apatia ou descuido ou falta de percepção da parte de Deus.
(6) SALMO 49.12,20 – “o homem… não permanece; antes é como os animais que perecem”.  Temos esta expressão duas vezes no Salmo, com palavras idênticas ainda que não iguais no hebraico.  Ec 3.19-22 enfatiza o mesmo ensinamento.  A morte é o grande nivelador de todos os homens e animais.  Esboço do Sl 49:
1. Introdução – 49.1-4 (enigma/parábola)                        3. O homem perecerá – 49.13-20
2. O homem não permanecerá – 49.5-12                           (1) Por causa da auto-confiança – 49.13,14
(1) Apesar das riquezas – 49.5-9                                      (2) Sem levar nada consigo – 49.16-20
(2) Apesar da sabedoria – 49.10                                                      (riquezas, felicidade, louvor)
(3) Apesar da posição social – 49.11,12                          4. Somente Deus pode remir e receber – 49.15
Veja o Salmo 73.3-5,13-16,24 para verificar o mesmo princípio.
Resposta – Em termos de deixar tudo para trás na ocasião da morte, somos como os animais.  A morte consumirá tudo (49.14,17).  Confiar em riquezas, sabedoria, posição social, autojustiça é a maior tolice, pois eles não têm valor após túmulo.  O temor de Deus é o princípio da sabedoria (Pv 1.7), pois depois da morte, Deus remirá a alma do poder do Sheol, e receberá quem confia nele (Sl 49.15; Gn 5.23).
(7) SALMO 68.11 – “grande é a companhia dos que anunciam as boas novas”.  A palavra hebraica “tsaba” indica que esta grande companhia (exército, multidão das mensageiras) que anuncia (prega) é feito exclusivamente de mulheres organizadas para guerra.  Onde estamos então com nossas proibições de pastoras nas igrejas evangélicas?  Resposta – Muitas vezes as mulheres serviam como líderes dos cânticos de vitória (Ex 15.20,21; Jz 5.1-32; 1Sm 18.7).  Talvez a referência seja a estas mulheres proclamando as boas novas destas vitórias.  Porém, a primeira parte do versículo diz que “o Senhor proclama a palavra”.  Esta “palavra” (‘omer) no hebraico, não significa notícia qualquer, mas se refere à voz (palavra) de Deus (Sl 68.33).  Sem dúvida, o versículo implica que as mulheres têm seu lugar como mensageiras que pregam as boas novas (Is 40.9; Jl 2.28; At 2.17,18).  Quem está em busca de versículos que restringem as mulheres na pregação da Palavra vai ter que olhar em outros trechos bíblicos para receber apoio.  As mulheres estão em destaque aqui.
(8) SALMO 82.1,6 – “Deus… julga no meio dos deuses (elohim)”.  (Veja também Sl 86.8; 95.3; 96.4,5; 97.7,9; 135.5; 136.2; 138.1) Será que o salmista está reconhecendo a existência de deuses em rivalidade a Jeová?  Será que  Asafe era um politeísta?    Resposta – A cena é de uma sala de tribunal (v. 1).  Deus está presente no meio dos juízes e administradores terrenos, e agora acusa estes ( os elohim), que deveriam representá-lo com justiça e retidão, de injustiça e parcialidade a favor dos ímpios.  A palavra “elohim” é muito usada no AT para se referir aos juízes, administradores, etc., que representavam Deus (veja Êx 21.6; 22.8; Sl 138.1; etc.).
Desde Gn 9.6, Deus transferiu o exercício do seu poder na terra para estes “deuses” subordinados (veja Rm 13.1-7).  Os pastores de Jr 23.1,2,4 e Ez 34.2-4,8-10 também são estes líderes dos quais Deus exigirá contas.
Sl 82.6 foi citado por Jesus (Jo 10.34-36) como argumento para apoiar sua reivindicação à divindade perante os judeus em Jerusalém na ocasião da festa da dedicação.  Rm 8.14,16.17 ensina que os que possuem o Espírito Santo, e são guiados por Ele, são filhos de Deus, afirmando Sl 82.6 “Eu disse: Vós sois deuses (elohim)”.
(9) SALMO 105.23-25 – “mudou o coração destes (os inimigos egípcios) para que odiassem o seu povo”.  Será que Deus é o autor do mal (Is 45.6,7)?  Será que Deus endurece a quem Ele quer e tem misericórdia de quem Ele quer, de uma forma arbitrária e caprichosa?  Veja Rm 9.13-22; Is 6.9,10; Mc 4.12; Jo 12.39-42).  Resposta – Temos que diferenciar entre a Vontade/Decretos Diretivos de Deus = a causa primária, e a Vontade/Decretos Permissivos de Deus = a conseqüência secundária.  Quase todas as profecias de julgamento por Deus são condicionais; ex. Jonas 3.4,5,10.  No caso de Faraó, Deus profetizou o endurecimento do seu coração (Êx 4.21; 7.3).  Porém, Faraó poderia ter alcançado misericórdia, pois a presciência de Deus não é determinativa.  A verdade é que Faraó endureceu seu coração 10 vezes primeiro durante as primeiras das dez pragas (Êx 7.13,14,22; 8.15,19,32; 9.7,34,35; 13.15).  Foi depois disto, que a longanimidade de Deus se esgotou (2Pe 3.8,9) e Deus começou a endurecer o coração de Faraó (Êx 9.12; 10.1,20,27; 11.10; 14.4,8,17).  Gn 6.3 indica que o Espírito de Deus nem sempre contenderá com o homem.  Chega o ponto em que Deus diz “basta, agora não há mais chance”.  Rm 1.18-32 ensina este mesmo princípio; o homem rejeita a Deus (Rm 1.18-23) e, portanto, Deus rejeita e entrega o homem a seus desejos (Rm 1.24-32).
Defrontamo-nos aqui mais uma vez com uma “antinomia” – o relacionamento entre a soberania de Deus e o livre arbítrio do homem.  Que Deus governa e controla os eventos da história do homem não há dúvida (Da 2.21; 4.17,32,34,35; 5.21; At 2.23,24; 4.27,28).  Deus faz com que até a ira do homem O louva (Sl 76.10).  Mas isso não exonera o homem de sua responsabilidade/liberdade de escolher o caminho certo e reto (Dt 30.19-20; Js 24.15).
(10) SALMO 137.8-9 – “feliz aquele que pegar em teus pequeninos e der com eles nas pedras”.  Esta é a mais dura exclamação imprecatória de todos os Salmos.  Outros Salmos de imprecações duras são 55, 59, 69, 79, e 109.  Resposta – Estes Salmos invocam o julgamento, a calamidade ou a maldição mediante um apelo a Deus que é o único juiz de todos os homens, e que julgará com justiça e eqüidade (Sl 96.13; 98.9).  Estas invocações não são meras irrupções de um espírito vingativo (Rm 12.19-21), mas são orações endereçadas a Deus, pedindo a Ele cumprir o que já prometeu fazer com os ímpios.  Veja Sl 37.2,9-10,15,35-38; 55.23; 63.9-11; 64.7-9; etc.  Os ataques dos ímpios aos fiéis como Davi, que representava Deus na sua posição de monarca, eram na análise final ataques contra Deus.   Em Lc 19.42-44, na frase “e te derribarão , a ti e aos teus filhos que dentro de ti estiverem”, Jesus usou a mesma palavra grega “édaphiousin” (arremeter, bater, quebrar com estrépito) que a LXX usou na sua tradução de Sl 137.9 da frase “e der com eles nas pedras.”  Esta palavra não é usada em nenhum outro versículo da Bíblia, indicando que Jesus estava se referindo a Sl 137.8,9.  A palavra “pequeninos” não indica a idade da criança, pois pode se referir a um adolescente, mas refere-se ao relacionamento com os pais ímpios cujos pecados foram repetidos na próxima geração.
CONCLUSÃO
É nos possível verificar porque o livro de Salmos foi um solo fértil para as idéias messiânicas. Sendo um povo que se expressava mais poeticamente do que discursivamente, que usava mais figuras de linguagem que conceitos, que se valia da tipologia (um tipo prefigurava outro), os discípulos interpretaram várias passagens como alusivas a Jesus. Isto não significa que agiram erradamente. Pelo contrário. Agiram certos, inspirados pelo Espírito Santo de Deus. Mas não pensemos em psicografia espírita, em que foram possessos por alguma entidade, ou que receberam uma mensagem num vácuo intelectual e cultural. Eles foram pesquisar em sua religião e em sua cultura o que acontecera. E descobriram aquilo que cremos de todo coração: que o Antigo Testamento em geral, e os Salmos, em particular, dão testemunho de Jesus como o Messias de Deus.
BIBLIOGRAFIA EM PORTUGUÊS PARA AVANÇO NOS ESTUDOS
CALVINO, João. O livro dos salmos – 4 volumes. São Paulo: Edições Parakletos.
CHOURAQUI, André. Louvores – Salmos. 2 volumes. Rio de Janeiro: Imago Editora.
COELHO FILHO, Isaltino. Teologia dos salmos. Rio de Janeiro: JUERP.
GIRARD, Marc. Como ler o livro dos salmos – espelho da vida do povo. São Paulo: Edições Paulinas.
GOURGUES, M. Os salmos e Jesus – Jesus e os salmos. São Paulo: Edições Paulinas.
KIDNER, Derek. Salmos – introdução e comentário – 2 volumes. São Paulo: Mundo Cristão e Vida Nova.
MORRIS, Henry. Amostra de salmos. Miami: Editora Vida.
MURPHY, R. E. Jó e Salmos – encontro e confronto com Deus. São Paulo: Edições Paulinas.
PEARLMAN, Myer. Ouro para te enriquecer. Pindamonhagaba: Instituto Bíblico das Assembléias de Deus.
STOTT, John. Salmos favoritos. São Paulo: Abba Press.
WEISER, Artur. Os salmos. São Paulo: Paulus.

[1] O Halel sempre foi cantado no templo quando os cordeiros foram mortos na Páscoa em sacrifício.  As famílias também cantavam o Halel em casa nas suas festas particulares da Páscoa.  Ele também foi cantado nas Festas de Pentecostes, Tabernáculos, e Dedicação. [2] Sobre isso, veja  meu livro,  “A Teologia dos Salmos”, onde mostro como o melhor retrato de Jesus, no Antigo Testamento, está no Saltério.